Gravadora: Mute
Data de Lançamento: 8 de abril de 2016

Música dos sonhos não é, por definição, um gênero. Embora esse tipo de som envolva um diálogo em que interlocutor e receptor se confundam na acepção semântica do que contam, veem ou imaginam, existe um aspecto que a diferencia das ‘demais’.

A forma, nesse caso, é mais importante que o resultado final.

O M83, projeto de Anthony Gonzalez, usou a infância como parâmetro da música dos sonhos no bem-sucedido Hurry Up, We’re Dreaming (2011).

Canções como “Midnight City” e “Claudia Lewis” tinham exatamente no formato a via crucis que justificava o título: musicalidade abafada e, principalmente, sintetizadores onipresentes, que deixam a constante sensação da narrativa permanecer ambientada em outro plano dimensional.

Junk tem muito desses elementos. A própria capa, que parece ter sido criada após um devaneio com Vila Sésamo, parece aprofundar ainda mais a divagação do disco anterior.

Neste caso, não há hino melhor que “Go!”, um rock eletrônico com choirs infantis e teclados em erupção. A música recria imagens lentamente, até chegar a um dos momentos mais perturbadores dos sonhos: quando estamos numa situação de adrenalina incontrolável, que pode levar a consequências constrangedoras (andar pelado na rua?) ou extremamente perigosas (cair de um penhasco, por exemplo).

Crítica: M83 | Hurry Up, We’re Dreaming

Supor a ação é uma das grandes forças de “Go!”. Minto; a verdade é que essa é a grande fortaleza em que o M83 se apoia. A inicial, “Do It, Try It”, tem no piano o apoio percussivo para deixar o ouvinte desperto logo de cara. Digamos que é uma música de academia que vale a pena incluir na playlist pessoal.

“Bibi The Dog”, com participação de MAI LAN, parece dar voz aos bichinhos da capa, enquanto, em contraste, um arranjo de metais busca deixar com que o tom épico prevaleça.

Ouvintes habituais já estão acostumados com essa obsessão do M83 pela construção musical que geralmente vai de encontro com um elemento catártico. Mesmo as instrumentais (como “Moon Crystal” e “Tension”) são dependentes dessa forma, assim como os singles têm a necessidade de parecerem extraídos de uma anotação de Gonzalez após o rápido despertar de um sonho, ou de um pesadelo.

Por isso mesmo, às vezes ouvir Junk é como se deparar com aquele comercial muito bem feito de perfume para agradar toda família. Eles focam na fala fofa da criança. Na inocência de um sentimento positivo. Na emoção dos pais e de qualquer adulto que testemunha isso.

Os elementos da eletrônica de M83 são progressivamente catárticos, e isso toca no ouvinte. Mas, a forma… A forma, às vezes, é uma praga à inventividade.

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