
Gravadora: Quintavant
Data de Lançamento: 25 de setembro de 2015
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Negro Léo não é vidente: ele não poderia prever que as escolas seriam ocupadas em São Paulo, contra uma medida imposta por Geraldo Alckmin. Ao citar os niños, as crianças, fala da vulnerabilidade ao totalitarismo (“Memória do Google”) e da interferência da internet na base de conhecimento (faixa-título). Noise-rock e free-jazz são termos que caem muito bem a Negro Léo, principalmente pelo enfoque de ser breve, abrupto e voraz. As religiões africanas também são latentes nas referências, como mostra “Não São Ciclopes”, canção que ironiza a crise de pensamento de esquerda, e como isso afeta as crianças: ‘A moçada está conformada no ritmo/Mas pode surpreender‘. A realidade provou que sim, felizmente.
Ouça: “Não São Ciclopes”

Gravadora: Glitterbeat
Data de Lançamento: 11 de setembro de 2015
Se antes a referência-mor era o Afrika’ 70, banda de Fela Kuti, o Bixiga 70 expandiu sua geolocalização musical em dois espaços diferentes: do Brasil, abraçou Cuba e Colômbia. Da Nigéria, pegou, também, Gana e Mali, terras cujas músicas folclóricas têm relação com o blues. Essa diversidade é base de um repertório sofisticadamente plural. Em “Niran”, o décteto paulistano une funk aos grooves do afro-beat, enquanto o calor de “Mil Vidas” tem na musicalidade do Caribe seu aconchego.
Ouça: disco na íntegra

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 14 de abril de 2015
É, enquanto título, indica objetividade, pragmatismo. Duda Brack faz esses apontamentos de forma vertiginosa, ancorada em guitarras distorcidas e baixos ululantes. Avant-garde seria um termo palatável, mas rock desconstrutivo é mais verossímil, porque a sonoridade progressivamente torta alia-se à mensagem crua e urgente da gaúcha de Porto Alegre. Apenas 8 faixas são efetivas para que Duda atropele as convenções – certamente influenciada por cicatrizes que não ficam expostas, mas que sabemos que, psicologicamente, foram e permanecem dolorosas: ‘o discurso político já não me atinge mais‘, canta, por exemplo, em “Eu Sou o Ar”.
Ouça: “Eu Sou o Ar”

Gravadora: YB Music/Selo Instituto
Data de Lançamento: 26 de outubro de 2015
O fato de ser um projeto coletivo não dá ao Instituto o peso de firmar compromisso com a criatividade. Tudo bem, foram mais de 13 anos desde o celebrado Coleção Nacional (2002), mas nem mesmo o fã mais atônito do projeto de Rica Amabis e Tejo Damasceno imaginaria se deparar com canções tão impactantes como “Vai Ser Assim” (com Criolo e Tony Allen) ou “Na Surdina” (com Jorge DuPeixe). “Alto do Zé do Pinho” é uma grata surpresa pra quem sentia falta de Sabotage, e o coro de Otto e as rimas de Sombra são claros exemplos de que a conexão rap-SP e manguebit-PE funciona. Destaque, também, para “Seco” (com BNegão e Joyo Velarde) e as instrumentais “Polugravura” e “Ossário”. O time é seleto, mas a proposta de tirar os promissores de sua zona de conforto de Violar é que torna o Instituto tão relevante na cena nacional.
Ouça: “Alto do Zé do Pinho”

Gravadora: Disco Maravilha
Data de Lançamento: 10 de março de 2015
Ela é do Rio, assume as referências do pós-tropicalismo e sabe ser singela. Mas, este disco de Ava Rocha se afasta do rol de outras cantoras contemporâneas por conta de uma compreensível naturalidade. Seu canto não oferece exageros nem mesmo em takes mais ousados, como “O Auto das Bacantes” – já registrado em Ilhas de Calor (melhor disco de 2014), do marido Negro Léo. A musicalidade estoura, mais parecendo ser extensão de desejos irreparáveis da cantora, que por contravenção estética. Com “Mar ao Fundo”, estruturalmente, acontece algo semelhante: as repetições ao final da canção são acompanhadas por distorções de guitarra: é como se Ava sentisse o impacto de suas ondas turbulentas e, mesmo assim, fosse adiante. Ela se perde, deixa-se ir, devaneia, com o objetivo de nos proporcionar o mesmo.
Ouça: “O Auto das Bacantes”

Gravadora: YB Music
Data de Lançamento: 29 de setembro de 2015
O radicalismo é uma via de mão dupla, mas o que dizer quando o assunto em questão realmente precisa de atenção? Em Selvática, Karina Buhr carrega o fardo de todas as mulheres, que diariamente sofrem com o fato de ganhar menos, trabalharem mais, serem violentadas, estupradas e discriminadas secularmente. É feminismo sim, com F maiúsculo, e há muito o que se aprender com isso: do que parece ser um frívolo pique-nique (“Pic Nic”) à extensão da causa social em prol de uma sociedade mais politizada (“Cerca de Prédio”, com Cannibal, fala sobre o Estelita), todos os problemas do nosso país estão relacionados no seu discurso irônico, agressivo e paulatinamente verdadeiro. O problema é de todo mundo.
Ouça: “Eu Sou Um Monstro”

4. Na Hora da Macumba
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 29 de abril de 2015
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Da João Pessoa (PB), o grupo Burgo! é liderado pelo trompetista pernambucano Hidemburgo Hipólito. Ele morou 17 anos na Alemanha e lançou o primeiro disco, homônimo, no ano passado, esquentando o jazz com referências do fusion à lá Weather Report num estilo de tocar meio Cláudio Roditi, meio Miles Davis. Noutras palavras, suas notas são firmemente ancoradas no groove edificante de Ch Malves (bateria), Caio Gomez (guitarra), Marco Deparis (piano elétrico), Edy Gonzaga (baixo) e João Cassiano (percussão). Na Hora da Macumba possui oito temas que assimilam os efeitos digitais – pense na eletricidade Black Byrd (1973) (“Bom de Improvisar”) com forte ar de latin-jazz (“Xamã”, principalmente). O grupo conta com o violão de 12 cordas de Pedro Osmar, em “Desviagem de Caipora” e “Carne Jaguaribe”, referência à lendária banda Jaguaribe Carne, dos anos 1970. Pode deixar rodar que é groove do BOM, com todas as letras maiúsculas.
Ouça: “Bom de Improvisar”

Gravadora: Natura Musical
Data de Lançamento: 4 de setembro de 2015
O que era pra ser um disco instrumental tornou-se o melhor trabalho de BNegão & Seletores de Frequência. Enquanto o primeiro trabalho apontava a versatilidade e o segundo balançava com o groove recarregado, TransmutAção é o encontro espiritual com os elementos formativos do grupo. De Noel Rosa (na regravação de “Fita Amarela”) a Mulatu Astatke (“Surfin’ Astake”), as referências guiam Bernardo Santos às suas composições mais maduras. É importante que as batidas desacelerem, para que o ouvinte deixe-se levar pelas nuances de “Um Tema Para Iemanjá” e fique atento, por exemplo, ao vício do smartphone em “Mundo Tela”. Pedro Selektor segue firme como a força-motriz sonora em seu trompete, que mais acompanha que sola em TransmutAção. Pois, na espiritualidade, autocontrole é essencial.
Ouça: “Mundo Tela”

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 2 de outubro de 2015
Para Ogi, a cidade de São Paulo é bem maior do que se pincela. A forma com que ele interage nessa imensidão é ricamente complexa: é como se ele nos desse um espelho antes indisponível. Em Crônicas da Cidade Cinza (2011), essas histórias revelavam um microcosmo urbano no Brasil. Em RÁ!, segundo disco, o cotidiano dentro desse microcosmo devolve ao mundo um compositor arguto e bem-humorado em iguais proporções. A Cracolândia em torno de “Estação da Luz” é tão grave, que tornou-se um choque nacional. A manipulação midiática citada em “Correspondente de Guerra”, com Juçara Marçal, reflete um país incapaz de romper com a oligarquia empresarial. Mesmo assim, Ogi dá um jeito de sair pela tangente e seguir adiante, ‘pois eu sou louco e ligeiro/Louco e ligeiro/Aventureiro‘.
Ouça: “Correspondente de Guerra”

Gravadora: Circus/Natura Musical
Data de Lançamento: 1º de outubro de 2015
A carioca Elza Soares é uma instituição musical, mas precisava de novas energias para transmitir sua empírica mensagem de mulher sofrida e experiente. A Mulher do Fim do Mundo não é um disco nada admirável: sua voz rascante é fruto de percalços nada fáceis ao longo de sua trajetória. Por isso, sua biografia pesa: aos 85 anos, perdeu 3 de 7 filhos – o último, Gilson, morreu recentemente aos 59, vítima de complicações urinárias. Isso não impede, porém, que ela continue curtindo a vida: em “Firmeza?!”, o papo ‘de compadre’ com Rodrigo Campos é exemplo gestual (e simples) de respeito ao outro. Ao lembrar da mãe, em “Canal”, Elza honra a própria árvore genealógica, sabendo que ainda há muito a aprender.
As canções da primeira parte do disco são as mais impactantes. Na sonoridade do partidão alto, ela se entrega à libido em “Pra Fuder”: ‘Me derreto toda/Minha pele vai arder‘. “Luz Vermelha” é o momento em que Elza assume o ar de contadora de histórias: a letra de Kiko Dinucci e Clima a põe como testemunha ocular de uma realidade mais chocante do que se diz na TV ou nos jornais. Já “Maria da Vila Matilde”, de Douglas Germano, representa a vontade de muitas mulheres que sofrem violência doméstica: coragem pra ligar e denunciar, algo muito mais complicado do que pegar o telefone e discar 180. O canto de Elza Soares, porém, é estimulante, apesar de ser fruto de um triste dado violento. ‘Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim‘, promete.
Nada do que Elza Soares canta em A Mulher do Fim do Mundo é novidade. Talvez isso torne o disco tão urgente. Por que a mulher que vive na periferia está mais vulnerável aos malefícios da sociedade? Achamos que sabemos, mas isso é um mito: ainda há muito o que ouvir das vozes que vêm lá dos fundões.
Ouça: “Pra Fuder”
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