Gravadora: RCA
Data de Lançamento: 23 de janeiro de 1976
Os anos 1970 foi a década em que David Bowie conheceu o estrelato, mas foi, também, a que conheceu a fundo a cocaína.
Tendem a considerar a Trilogia de Berlim o ápice de transição artística do Camaleão, mas nada daquilo seria possível sem o disco mais controverso de sua carreira. Thin White Duke (ou Duque Magro e Branco), personagem que adotou geralmente envolto em P&B num cabaré obscuro, fez da decadência do pó uma inspiração obscura cheio de referências ocultistas principalmente da Alemanha, local que seria crucial para sua reformulação musical após esgotar as possibilidades com o funk e o rock norte-americanos (quer dizer, esgotar dentro daquilo que ele poderia fazer, pois mesmo Bowie enfrentou algumas limitações ao mediar art-rock e estrelato).
Station To Station é meu disco preferido de Bowie porque representa o caos e o descontrole dele próprio em relação à sua obra.
Tudo o que este britânico fez, até aqui, foi consciente e, em diferentes medidas, inovador. Mas, por exemplo, em The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars (1972), sua associação com o alienígena rockstar foi uma esperta conexão, mas ainda assim uma conexão, vinda de um estado consciente. Alladin Sane (1973) é a tentativa do rompimento, mas a brecha para a exploração de uma musicalidade mais madura, quase clássica (agradeça, também, às belas notas de piano de Mike Garson).
Que Bowie sempre teve a popularidade ao seu lado por ser estranho, todos já sabem, mas Station to Station foi longe demais. Por que raios ele chamaria para ‘correr em direção às sombras’ no funk-chacota “Golden Years”? Estaria ele louco ao admitir que ‘não são os efeitos colaterais da cocaína’ que o influenciam na faixa-título?
Nem o próprio Bowie diz lembrar o que foi tudo aquilo. O disco tem apenas 6 faixas. Nenhuma delas é hit – sua proposta anticomercial resultou num reprocessamento tácito do funk e R&B que dava ares de estrepitoso no anterior Young Americans (1975).
Apesar das belas delineações de piano de Roy Bittan em “Word On a Wing” e dos riffs cavalares de Carlos Alomar em “TVC15”, o que realmente prevalece é a atmosfera. Não uma atmosfera misteriosa, como ele exploraria em Low e ‘Heroes’ (1977). O mistério dessa atmosfera consiste numa busca errática por um eu que nem David Bowie fazia ideia de quem seria.

Toda discografia comentada e reavaliada de David Bowie
De qualquer forma, seja lá quem ele fosse, ou quem gostaria de ser, era dotado de uma espiritualidade até então desconhecida. Sério, da onde veio a inspiração para dizer: ‘Senhor, eu me ajoelho para oferecer minha palavra em uma asa’? No verso seguinte ele diz que está ‘tentando duramente’ fazer com que as coisas melhorem, mas se a música por si só é a verdadeira mensagem do álbum, penso o seguinte: ali, naquele momento em que cantou aquela canção, Bowie estava num auge que não chegaria mais.
Sua sinceridade extrapolou os conhecimentos estéticos num momento em que o controle estava a léguas de suas entranhas.
Ouvir Station to Station é como testemunhar um Bowie indefeso, sem a barreira invisível que a sua inteligência da música pop havia criado sem que ninguém percebesse. Nenhum outro álbum é como Station to Station, porque em nenhum outro momento ele foi tão perigoso, vulnerável e controverso.
Essa linha tênue que aproxima o britânico de um ídolo que ninguém gostaria de ter: é isso que faz de Station to Station um álbum tão foda!
