O Abayomy Afrobeat Orquestra transformou a choperia do Sesc Pompeia em um baile africano. Era difícil ficar parado diante daqueles metais em frisson, guitarras ágeis e teclados espaciais.

A entrega ao som não era bem uma opção, era simplesmente uma resposta do seu corpo às batidas pulsantes daquela música.

Na última sexta-feira, 26 de outubro, o Abayomy apresentou ao público todas as faixas de seu disco de estreia, lançado recentemente com produção de André Abujamra, que também participou do show.

Parte do contágio musical criado pela big band carioca é proporcionado pela postura ativa de todos os integrantes – nada menos que 13! Primeiro, vimos o percussionista Alexandre Garnizé fazendo um interlúdio inspirado por algum rito africano. Ele supostamente faz que vai cantar, mas o grande triunfo é vê-lo se juntar aos também percussionistas Cláudio Fantinato e Rodrigo Larosa para potencializar ainda mais o som da banda.

A noite também estava reservada para diversas participações: Mauricio Fleury, grande tecladista que toca com o Bixiga 70, entre outros projetos, chegou a assumir o instrumento empunhado por Donatinho e fez um solo incrível, bem rock’n roll.

Aliás, foi neste show do Abayomy que cheguei à seguinte assertiva: afro-beat e rock’n roll são gêneros entrelaçados. Quando Abujamra surgiu com sua guitarra, me vi diante de um ogro que tinha todos os trejeitos para comandar um solo numa banda de rock dos anos 1970. Ele disse estar grato por produzir o disco da banda, fez uma batalha espetacular com Donatinho à frente do grupo, tocou percussão, cantou Fela Kuti…

É devido à postura ativa dos músicos que você encontra grandes virtuoses na Abayomy: o baterista Thomas Harres mostrou como é tocar o instrumento no tempo do afro-beat, com quebradas jazzísticas e controle na dinâmica; Leandro Joaquim fez longos solos em seu trompete – tanto que, em alguns momentos, dava pra perceber o quanto ele batalhou contra o fôlego; Donatinho usou e abusou de efeitos em seus teclados, levando os ouvintes para experiências interestelares.

E que solo era aquele de Mônica Ávila no sax alto da faixa “Emi Yaba”! Ela tem a habilidade de controlar o tempo das músicas, alternando longos solos em tempo atrasado com sopros firmes e curtos de expelir vísceras.

Não há dúvidas quanto à ancestralidade africana de nossa música. Naquele show, o Abayomy fez questão de estreitar esses laços e nos mostrar que o afro-beat foi feito, dançado e evocado por parentes – por mais distantes que eles pareçam estar.

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Ouça na íntegra o primeiro disco do Abayomy Afrobeat Orquestra: