Gravadora: New West
Data de Lançamento: 11 de setembro de 2015

Então, está aí. Simples e direto, Ben Folds deixa bem claro que o trabalho solo entregue em So There não tem nada a ver com o rock a frente do Ben Folds Five.

A resposta vem logo na primeira faixa, e não apenas por conta do título “Capable of Anything”: ‘Você é capaz de tudo/Estou certo do que dizem/Você pode ser presidente/Ou pode apenas me perdoar’, entoa o vocalista de 49 anos, num meio-termo entre Sufjan Stevens e Billy Joel.

Chamber-music com música orquestrada: o que a yMusic oferece ao compositor em termos de suporte musical engrandece suas pretensões artísticas. Da dramaticidade ao ponto nevrálgico das claves sonoras, Folds voa, aterrissa e canta com o pacifismo (ou ironia?) de quem descobriu um paraíso que já rodeou vezes suficientes para nos dizer que é encantador. E, sim, ele convence.

Entre arranjos, orquestração e gravações, Ben Folds levou seis meses para chegar a So There. O piano do compositor trafega do monocromático ao extremamente denso, sempre calcado na manutenção rítmica.

Da dramaticidade ao ponto nevrálgico das claves sonoras, Ben Folds voa, aterrissa e canta com o pacifismo (ou ironia?) de quem descobriu um paraíso que já rodeou vezes suficientes para nos dizer que é encantador

Os músicos da orquestra, de Nova York, dão diferentes sustentáculos às composições: “Not a Fan” e “Yes Man” são adornadas por flautas e violinos que soam como sopros de diferentes partes de uma colina – uma colina em que Folds deseja, lamenta, repreende. E pensa sobre si mesmo, de múltiplas maneiras. (Em “I’m Not the Man”, ele contempla a morte, dizendo: ‘Estou dançando em meu próprio túmulo/Deve haver poucos dias à frente’.)

A faixa-título é levada em staccato numa síncope simplificada (um dois, um dois), asseguradas pelas notas de Folds. As transições apontadas pela yMusic nesta composição são dignas de destaque: o intercalar de violinos, bateria, violoncelos e arranjos de cordas em geral dizem mais do que a tergiversação do vocalista, que canta: ‘Não te devo nada’.

Nem sempre a dinâmica fortalece a musicalidade de Ben Folds. “Long Way To Go” sofre de um desajuste rítmico que, ao invés de soar complexo, resulta repetitivo. A brincadeira proposta em “F10-D-A”, em que cada pronúncia de letras respondem a escalas que elas representam, soa muito direcionada a leitores de partituras. Funciona, mas apenas numa única audição – diferentemente, por exemplo, da segunda parte do disco.

Em três movimentos, Ben Folds dedica os 20 minutos finais de So There ao concerto clássico de piano. Quer dizer, clássico no estilo American Songbook – mais George Gerswhin que Bach. Folds gravou este trecho com a Nashville Ballet, a orquestra de Minnesota e a Orquestra Sinfônica de Nashville, numa performance de 2014. “Se for a morte, esta é a melhor forma de sair de cena”, chegou a declarar.

É nesta parte, inclusive, que Ben Folds melhor expõe sua técnica pianística, mais centrada no ritmo que na intrincada construção de acordes. “Posso criar algumas porcarias, e isso não tem nada a ver em fazer marketing próprio, em ser cool ou não”, disse o músico, em entrevista à Billboard. “Posso orquestrar um monte de coisas”, revelou, com modéstia. Por mais que a relação entre a primeira e a segunda parte (do disco e da declaração) seja distante, ambos configuram um tom ‘muito mais que leviano’ para descrever So There. Muito mais mesmo.

Outros lançamentos relevantes:

Vivendo do Ócio: Selva Mundo (Independente)
Gary Clark Jr.: The Story of Sonny Boy Slim (Warner)
Slayer: Repentless (Nuclear Blast)
Chick Corea & Béla Fleck: Two (Concord)
Guilty Simpson: Detroit’s Son (Stones Throw)