Um nome como A Curva da Cintura sugere algo dançante, quase um axé. Poderia até mesmo ser título de um disco do É o Tchan. Mas é muito mais que tudo isso – e não tem nada a ver com o que você possa pensar.
Num resumo, A Curva da Cintura é world music mesmo. Mas bem melhor sucedida que um SuperHeavy ou “We Are the World”, para citar exemplos famigerados
Primeiramente, é um projeto dos roqueiros Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra. No entanto, esqueça os riffs de guitarra raivosos de Ira! ou Titãs – tampouco um lado acústico-psicodélico levado pela mente improvável de Arnaldo.
O projeto mostra Arnaldo e Edgard como aprendizes. É que A Curva da Cintura tem um terceiro nome que confunde tudo o que você pode imaginar desses artistas: o envolvimento do músico Toumani Diabaté que, além de mostrar a kora (uma harpa de 21 cordas) para os dois artistas, coloca a música malinense como pano de fundo para Arnaldo fazer o que quiser com seus vocais.
Num resumo, é world music mesmo. Mas bem melhor sucedida que um SuperHeavy ou “We Are the World”, para citar exemplos famigerados.
Arnaldo mistura estranheza e agressividade quando canta. Em “Cara”, levado por instrumentos de corda tão ágeis que podem confundir seus pés no momento em que tentar dançá-la, o músico faz uma bela inversão de trocadilhos que faria todo sentido n’Os Tribalistas. É difícil não sucumbir ao desejo de ficar cantando: “ou entra na dele como ele ou ele cruza a sua cara(…)/cara, tem cara na sua cara”. Ou ‘descobre a cara desse cara ou sua cara escancara’. Muito divertido.
Em “Um Senhor”, provavelmente o músico deve ter se inspirado na fase Cabeça Dinossauro dos Titãs. Scandurra faz uma introdução pungente e outros instrumentos tradicionais da África Oriental pegam fogo por trás do som, enquanto Arnaldo despeja sua raiva autoritária ao abusar da palavra ‘senhor’. Ele interpreta com agressividade o arquétipo do cara que chega do trabalho e que gosta de ‘gastar o tempo ocioso do jeito mais gostoso’ vendo ‘televisão com um roupão’. Esse personagem todos nós conhecemos: é aquele que tem ‘pouco tempo’, e que justifica sua negligência com os acontecimentos de sua casa e de seu país porque dedica seu ‘precioso tempo’ para o trabalho. E o resto? Para ele, pouco interessa.
Além da kora, A Curva da Cintura é recheada por outros instrumentos pouco convencionais em nossas terras: tem o balafon, que deu origem ao xilofone; o djembê, um tambor que tem formato de um cálice de madeira e é tradicional da Guiné; o soku, que é um violino de uma corda só que usualmente acompanha vocais femininos da música malinense. E a lista é extensa.
Em entrevista ao Scream & Yell, Edgard Scandurra, que disse que tocou cavaquinho pela primeira vez neste projeto, falou um pouco sobre o que significou A Curva da Cintura para sua carreira: “Acho um disco importante, pois transcendeu a nossa capacidade de compormos juntos, criando um novo som e acho que isso é uma qualidade que procuramos manter, tanto em minha carreira solo, como a do Arnaldo”.
Dance de qualquer outra forma, mas nada de rebolar.
***
Abaixo, ouça algumas faixas do disco homônimo de A Curva da Cintura:
