
Shabazz Palaces em foto rara (eles não são de aparecer muito mesmo) de Nikki Benson
Gravadora: Sub Pop





Transcorrer as rimas do hip hop para algo que possa ser sentido além das batidas não é um compromisso da maioria dos rappers internacionais da atualidade. Recorrer a samplers funky tem sido um refúgio bem-sucedido para artistas do gênero que, ao invés de contribuírem para uma evolução, inibiam as possibilidades munidos de frases que retratam os excessos do hedonismo.
Tudo bem que depois houve muitas experimentações com o rock, o reggae e mesmo o trip hop. Mas seria difícil imaginar o hip hop de hoje com uma visão futurista recorrendo ao minimalismo e às engenharias sonoras quebradas de forma orgânica, que estivessem aliadas ao discurso. Eis que chega o Shabazz Palaces e vemos o gênero atingir o patamar do questionamento: por que não inventar novas ambientações para as rimas em vez de cair no ostracismo de fazer sempre o mesmo?
Perfeita profusão de dubstep, smooth jazz, música clássica e rap cru, Shabazz Palaces invade o terreno muito bem explorado por Flying Lotus transbordando inventividade em Black Up
Palaceer Lazaro é o cara por trás deste projeto de Seattle. Ele já tocou com o Digable Planets nos anos 90 unindo o rap com jazz, e está apostando sobriamente no quesito mais obscuro da música em si. “It’s a feeling”, ele não cansa de repetir em “Are You… Can You… Were You… (Felt)” num som ambiente estarrecedor com leves pitadas de dubstep e música clássica que, posteriormente, segue com uma espécie de sampler folk apimentada pela anarquia dos instrumentos de sopro, de corda e sintetizadores.
Em uma entrevista rara para o Pitchfork, o músico reforçou essa assertividade de sentir: “Todos nós sentimos, essa era em que o conteúdo dirige a informação não é interessante. Não é única. Nenhuma das perguntas comumente feitas são reveladoras”.
Só por ter sido lançada pela gravadora Sub Pop, que nunca havia feito um álbum de rap, há de se considerar o cheiro de inovação no ar. E aí, você analisa primeiro os nomes das canções como “An Echo From The Hosts That Profess Infinitum” (batidas quebradas e letras esvoaçantes em rimas futuristas) e “Endeavors for Never (the last time we spoke you were not here. I saw you though)” (que começa com um sax aberto em meio a barulhos distorcidos de videogame e sons ambientes).
“An Echo From The Hosts That Profess Infinitum”
“Are You… Can You… Were You… (Felt)”
Tudo é renovado, como se o próprio gênero tivesse que se bagunçar para se encontrar. Em Black Up, a proposta é realmente espalhar os sentidos tanto pelas experimentações estéticas como pela própria abordagem das letras: “Pacientes são apenas seres antigos/veja no que você recebe alta” (num trocadilho que serviria para ‘ficar chapado’ com o termo ‘get high’), versa Palaceer em “Recollections of the Wrath”, sugerindo incursões intraplanetárias e questionando nossos ultrapassados valores humanos.
As rimas não são sugestivas e tampouco mostram as idiossincrasias do rapper que sempre trilhou pelas sombras. Também não são apenas frivolidades estéticas: Shabazz Palaces tenta invadir com afinco o terreno muito bem explorado por Flying Lotus e já iniciado pelo Digable Planets. Palaceer chama as garotas do THEESatisfaction, que também estão roubando a cena em Seattle, para vozes robóticas e esquizofrênicas em “Endeavors for Never (the Last Time we spoke you were not here. I saw you though)” e “Swerve the Reeping of All that is Worthwhile (Noir Not Withstanding)”, a faixa que encerra o disco com uma espécie de desespero forjado após diluir toda a essência do rap gangsta com tomadas industriais que remetem a um DJ Shadow lesado e mais ávido no peso monocromático do gênero.
Se você achava que o rap já estava se desgastando em tentativas audaciosas, não pode deixar de conferir esta perfeita profusão de dubstep, smooth jazz, música clássica e rap cru em um dos registros mais fabulosos de 2011.
Melhores Faixas: todas, sem exceção. Abuse da audição!
