Fez bastante sucesso no Youtube uma recente produção off Broadway com o pai do afrobeat, Fela Ransome Kuti. O diretor e coreógrafo Bill T. Jones recebeu 11 indicações do Tony Awards pela apresentação, incluindo melhor direção pra ele, melhor interpretação do cantor para Sahr Ngaujah e melhor orquestra musical a cargo de Aaron Johnson.

De fato, o musical Fela! impressiona pela ótima atuação de Ngaujah, que faz jus à nomeação do Tony, e pela ótima sincronia do ator/músico com a orquestra, majoritariamente composta por dançarinas mulheres. Ngaujah veste a camisa do ativista e cantor de afrobeat, acompanhando o ritmo africano, tocando sax e empenhando frases políticas que marcariam a carreira de Fela Kuti.

Fela! foi apresentado pela primeira vez no ano passado. À época, Jones refletiu sua emoção em dirigir o musical:

“Neste show, adoraria dar uma introdução à nova geração frequentadora de teatro, amantes da música e, também, estudantes de história a um descompromissado monstro sagrado. Daqueles que a civilização humana realmente necessita. Essas personalidades são imoderadas, às vezes até um pouco desorientadas, mas graças à sua genialidade e coragem que têm, conseguem disparar a verdade aos poderosos. E eles são inspiradores. São capazes de mudar as coisas. Esta é a razão de eu estar realmente excitado em trazer aos palcos a vida deste homem [Fela Kuti]”.

Não é exagero afirmar que Fela Kuti é umas das vozes mais conhecidas e influentes do continente africano. Ele nasceu em 1938 na Nigéria e mudou-se para Londres aos vinte anos para estudar medicina. Entretanto, ele acabou entrando em contato com a música e formou o grupo Koola Lobitos, misturando o jazz americano com as batidas africanas. Anos depois, ele visitou os Estados Unidos e conheceu Sandra Smith, que lhe apresentou o grupo dos Black Panthers. Este foi o primeiro passo para seu envolvimento com a política. Antes de ser expulso do país, ele fez uma apresentação, em 1969, na cidade de Los Angeles, com uma nova roupagem sonora, cantando “Viva Nigeria” e “Wayo”, reflexo de suas influências do movimento Black Power norte-americano.

Filho de uma feminista do movimento anticolonialista, Funmilayo Ransome Kuti, e de um pastor protestante, Reverendo Israel Oludotun Ransome-Kuti, logo o cantor mudaria seu nome do meio  para ‘Anikulapo’, afirmando que ‘Ransome’ era um sobrenome oriundo de escravos. ‘Anikulapo’ significa ‘a morte no bolso’.

De volta à Nigéria, Fela Kuti começou a compor músicas de cunho político. Ele era contra o colonialismo sustentado pela República Kalakuta e acabou gravando sua primeira canção anti-regime, conhecida como “Zombie”. A música era uma crítica clara aos soldados que serviam ao governo e atuavam como violentos repressores civis. Os militares resolveram investir contra os ataques e espancaram Fela, que disse que chegou à beira da morte. Sua mãe foi arremessada de uma janela pelos soldados, deixando-a com graves ferimentos.

Mesmo assim, Fela Kuti não desistiu de suas brigadas políticas. Em 1979, ele se candidatou à presidência do país. Alguns dos músicos que tocavam com ele achavam que suas apresentações não passavam de comícios e romperam com a “Afrika 70”, sua antiga banda de apoio. Ele formou outro grupo, o “Egypt 80”, e seguiu com apresentações internacionais, chegando a tocar com Bono, do U2, e o guitarrista latino Carlos Santana.

Nos anos 1990, seu ritmo de produção musical caiu e ele acabou contraindo uma doença que não ousou enfrentar. Faleceu em 3 de agosto de 1997, atraindo mais de um milhão de pessoas ao seu funeral.

Apesar de ser bastante conhecido mundialmente, sua música não obteve muito sucesso comercial devido às intensas jams, com faixas que duravam de 10 a 20 minutos cada. O som de Fela Kuti é caracterizado pelas fortes batidas percussivas e a quase onipresença de teclados, intercalando com sax e trompete. Seu estilo é formado por uma base de baixo, bateria e guitarra, que seguem repetidamente até introduzir os demais instrumentos. Esse estilo é conhecido como ‘endless groove’, uma inspiração do ritmo funk.