Os dias de hoje estão absolutamente favoráveis ao afro-beat: não só aqui, com o surgimento de grupos como Bixiga 70 e Abayomy Afrobeat Orchestra, mas principalmente no mercado lá fora, com relançamentos de compilações históricas, como Afro-Beat Airways: West African Shock Waves (de 2010, que traz importantes registros da música de Gana e Togo dos anos 70) e o retorno de grandes figuras como Mulatu Astatke e Ebo Taylor, que tiveram suas obras reconhecidas após o grande público se reencantar com os passos dados por Fela Kuti.

01 Dirty Money 02 The Ratcatcher 03 Him Belly No Go Sweet 04 Ari Degbe 05 Ibeji
06 Sare Kon Kon
(Por mais que Mulatu (ethio-jazz) e Taylor (highlife) não façam diretamente afro-beat, o interesse sobre suas obras veio justamente na onda de Fela, pelo menos em continentes onde a amplitude da música africana é injustamente rotulada a poucos gêneros.)
Caso o afro-beat mantenha-se com o sucesso de hoje daqui há trinta anos, por exemplo, a história certamente deve creditar esse ‘retorno à cena’ ao musical Fela!, que desde 2008 fez mais sucesso que o esperado na Broadway chegando a faturar um Tony Award.
Aaron Johnson, que pode ser considerado líder do grupo, foi nominado pela orquestração à frente do Antibalas, responsável por reavivar a instrumentação pesada das bandas de Fela nos anos 1970 e 80 no musical da Broadway.
Antibalas, o grupo, surgiu em 1998 no Brooklyn (EUA) com a proposta de unir música latina, jazz, funk. E, claro, Fela Kuti, a referência-mor!
O coletivo já chegou a lançar quatro discos, mas é agora que finalmente pode-se fazer justiça à sua obra. Eles lançaram oficialmente no dia 7 de agosto o disco homônimo, Antibalas, que veio com pinta de debut.
As comparações com os grupos Afrika’ 70 e Egypt’ 80, ambos de Fela, serão inevitáveis, mas há de se fazer jus às diferenciações. A primeira delas tem a ver com a lógica de tempo: enquanto 40 minutos seria tempo de duas faixas do mais conhecido músico da Nigéria, esse é o tempo hábil para se ouvir todo o disco Antibalas, dividido em 6 canções.
Enquanto as jams de Fela destilavam uma energia irascível proveniente do despotismo do governo nigeriano (que feriu a família de Fela e construiu um modelo separatista por meio da repressão), o Antibalas capta realmente a tessitura sonora que veio a partir dessa raiva. Aqui, a música é pela música, em primeiro lugar.
Com isso em mente, a mensagem é segundo plano, um complemento da estética – ao contrário do que ocorria com a música de Fela, conhecido pela frase ‘music is the weapon’ (música é a arma, que inclusive é título de um álbum de Fela). Por exemplo, em “Dirty Money” o protesto é descrito em escala global, mostrando que a sujeira do dinheiro só tem a sustentar males que existem em qualquer lugar geográfico.
“The Ratcatcher” ainda traz a dinâmica de órgãos e percussões que caracterizam o som de Fela há léguas de distância, mas aí também tem um caldo de cuban-jazz, deixando a música mais dançante e um pouco (eu disse um pouco!) menos visceral.
Além da língua inglesa com claro sotaque de dialetos africanos, o Antibalas também se dispõe da língua iorubá, falado por mais de 30 milhões de pessoas no mundo – e bem representativo na Nigéria. É essa a língua falada em “Sare Kon Kon”, daquelas que necessitam da participação do público para soar ainda mais efetiva.
Algo importante de se notar no Antibalas é a diversidade dos 13 integrantes que complementam a banda: tem brancos, negros, latinos, descendentes europeus e asiáticos, com idades que vão dos 21 aos 54 anos.
Não é uma idiossincrasia que está em jogo, como mostra a multiplicidade do Antibalas. Diferente de Fela Kuti, que puxava os ouvintes por seu carisma e pela força de seus ideais, o Antibalas é a favor da globalização cultural, com musicalidade capaz de conquistar novos ouvintes – até mesmo aqueles que não se identificam com o lendário músico nigeriano.
É a luta pela música em si – e não a música como instrumento de luta.
Aliás, por falar em luta, o grupo pode ficar sossegado. Não há mal que perfure o forte escudo musical do Antibalas.
Para cargo de registro: o Antibalas veio para uma apresentação no Brasil em abril, no Cine Joia (São Paulo). Foi o Bixiga 70 que abriu o show.
