
01 The Anal Staircase 02 Slur 03 Babylero 04 Ostia (The Death of Pasolini) 05 Herald 06 Penetralia 07 Ravenous 08 Circles of Mania 09 Blood from the Air 10 Who by Fire 11 The Golden Section
12 The First Five Minutes After Death
Gravadora: Some Bizzarre/Relativity
Data de Lançamento: 1986 na Grã-Bretanha; 1987 nos Estados Unidos e outros países
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Demorou pra entender o que era este segundo disco do Coil. Uma, duas, três, quatro, cinco audições de suas 12 faixas, nada revelado. Mistérios e mais mistérios.
Mal conseguia distinguir qual o gênero que melhor encaixaria pra descrever as incursões que iam de uma espécie de folk oriental (“Ostia (The Death of Pasolini)”), passando pelo sci-fi de “Ravenous” (meio Blade Runner com suspense, algo também encontrado em “The First Five Minutes After Death”) até chegar às guitarras pesadas de “Penetralia”.
O Wikipedia menciona o gênero industrial, mas o conceito de Horse Rotorvator é mais complexo e misterioso que qualquer outro registro do tipo.
Fruto de um sonho maluco do integrante John Balance, Horse Rotorvator é centrado na história dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Eles iniciam a mutilação da humanidade, “cortando suas gargantas e moldando a partir de mandíbulas conectadas um arado com o que se escoria a Terra”.
Também estão encaixados no conceito a literatura perversa e caótica do francês Jean Genet, a psicodelia sessentista, o gótico e as histórias temíveis do século XV. Até mesmo a trágica morte do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (que morreu em 1975 enquanto dirigia próximo a Roma) serviu de inspiração: é o caso de “Ostia (The Death of Pasolini)”, que trafega por arranjos fúnebres de violinos conectando com o ideal apocalíptico do sonho de Balance: ‘Você pode ouvir os ossos zumbindo/E o carro inverte mais’.
O disco começa com o eletrônico esfuziante de “The Anal Staircase”, indicando que a mutilação pode ser comparada à penetração anal. O que poderia ser uma experiência bem-humorada torna-se praticamente uma realidade possível. É como se o Coil estivesse dizendo: estamos realmente fodidos! ‘Sopre a porra da coisa à parte’, grita os vocais.
A messiânica “Slur” é envolto por uma atmosfera pós-punk, com esperta inserção percussiva. Descrevendo uma Roma com ‘sombras à venda’, a faixa tem participação de Marc Almond nos backing vocals (vale dizer que o Coil gravou uma versão de “Tainted Love”, do Soft Cell, o principal projeto de Almond, no primeiro disco Scatology (1984)). Ah, o oportuno cover de “Who By Fire”, de Leonard Cohen, também conta com a assistência de Almond.
O Coil também brinca com música de marchinha (“Herald”) e, dentro do mesmo conceito, encaixa o experimentalismo gótico em “Blood From the Air”. As múltiplas direções mostram que a produção é uma das maiores tônicas do duo.
Balance e Christopherson exploraram as nuances do sonho sem impor uma distinção. Ou seja, acid-jazz, industrial, música tântrica, oriental, new-wave e o que mais for têm seus elementos fragmentados, deturpados e relidos em um disco que não precisa se fazer entendido para arrancar elogios.
Para a loucura desenfreada de “Circles of Mania”, há a seriedade provincial de “The Golden Section”. Se “The First Five Minutes After Death” vislumbra um futuro incerto e quase vazio, “Penetralia” impõe o peso de um presente violento – como se cada riff carregasse o ardor das marteladas, foices e outras armas assassinas nas mãos dos cavaleiros.
Fazendo uso de atmosferas extremadas, subvertendo sacralidade e violência e sugerindo rumos ainda mais incertos do que se pode imaginar, Horse Rotorvator pode ser entendido como um disco isolado de qualquer cena – inclusive, da industrial.
É um disco icônico. Um disco que vai te fazer martelar e provocar distintas impressões numa mesma audição.
Muitas edições já foram relançadas do álbum. No entanto, boa parte delas não obteve autorização do duo – inclusive as versões em CD editadas pela Some Bizzarre, com quem eles romperam após o lançamento de Horse Rotorvator. Numa reedição feita pelo Coil, eles estamparam na capa: ‘Stevo, pague o que você nos deve!‘ – mensagem direta ao proprietário da Some Bizarre: Stevo Pearce.
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A seguir ouça Horse Rotorvator, do Coil, na íntegra como playlist do YouTube:
