
MC5 fechou com a Elektra Records e deu os primeiros passos para se tornar uma das maiores referências proto-punk
Certo dia John Sinclair, que seria um futuro manager de uma banda de rock, publicou em uma coluna de jornal: “Qual é a desses roqueiros enroladores? Se ao menos prestassem atenção em música de verdade, como Sun Ra e John Coltrane…”
“Não me conformei com aquilo, sabe? Fui até a casa dele e disse: ‘Hey cara, que história é essa? Nós também estamos na comunidade e sabemos quem é John Coltrane. Precisamos de um lugar para ensaiar.’ Então a gente fumou um baseado e ficou tudo numa boa”, revelou o guitarrista Wayne Kramer, sobre o início da carreira de Motor City Five, mais conhecidos como MC5.
Kick Out the Jams é uma verdadeira afronta ao sistema político, recheado de instigações protestantes ao então presidente norte-americano Lyndon Johnson
Sinclair, que engoliria os batráquios de sua coluna, só aceitou ser empresário da banda com uma condição: que eles tentassem se inserir naquela onda hippie protestando contra a política americana. Em outras palavras, ele queria ver o MC5 ser reconhecido pela imprensa como uma banda revolucionária, para conseguir um contrato gordo com alguma grande gravadora.
Porém, não foi bem isso que aconteceu. Eles até conseguiram tocar diante de uma multidão ensandecida no Big Ballroom, após o empresário da Elektra Records, Danny Fields, assinar um contrato com eles como banda primária – deixando os Stooges como banda secundária (ou seja, pagar mais pelo MC5 que pelos Stooges). Daí foram os primeiros passos do debut Kick Out the Jams.
O álbum é uma verdadeira afronta ao sistema político, recheado de instigações protestantes ao então presidente norte-americano Lyndon Johnson. Os vocais de Rob Tyner que introduzem a faixa-título denotam a real intenção dos integrantes: “Right now, it’s time to… Kick out the jams, motherfuckers!”.
A partir daí, é uma porrada atrás da outra. O estilo ‘slide guitar’ de Fred ‘Sonic’ Smith – falecido ex-marido de Patti Smith e inspiração declarada não só para o nome da banda Sonic Youth como para inúmeros guitarristas – e a devastação empolgante de Wayne Kramer nos solos de sua guitarra trariam o tom nervoso de canções como “Come Together”, “Borderline” e “Starship”.
Só que o declínio estava mais próximo do que parecia para Kramer, Tyner, ‘Sonic’, o baixista Michael Davis e o baterista Dennis Thompson. Em um desses festivais, os militares censores resolveram atacar os imponentes e invadiram o Festival of Life, que estava próximo à Convenção Democrática de Chicago. Loucos de haxixe, os integrantes e a plateia foram agredidos pelos policiais e toda aquela festança teve que ter um fim.
MC5: “Starship”
MC5: “Come Together”
Fim? Não era bem isso que o MC5 tinha em mente. Toda aquela devastação serviu de inspiração para Wayne Kramer. “A gente tava tocando ‘Starship’ e estava naquele clima espacial da música, falando sobre a guerra e o ser-humano-máquina-de-cortar-grama, quando os helicópteros da polícia de Chicago começaram a dar rasante”, disse Kramer para os autores de Mate-me Por Favor. “Eles vinham em cima de nós e o som do helicóptero combinava com o que eu estava tocando na guitarra. Uau! Perfeito cara!”, admitiu o exímio guitarrista. “Aquela coisa toda fez absoluto sentido pra mim”.
Originalmente escrito para o blog O Atemporal (com adaptações).
