Gravadora: Death Row/Priority/Interscope
Data de Lançamento: 15 de dezembro de 1992
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Pioneiro do gangsta rap, o N.W.A. foi um dos mais bem-sucedidos grupos no gênero. Com Straight Outta Compton (1988), Eazy-E, Ice Cube, Arabian Prince, DJ Yella, MC Ren e Dr. Dre combateram de frente a repressão policial (com “Fuck Tha Police”) e estamparam a todo o território dos Estados Unidos a força do discurso politizado no hip hop.
Mas, havia o dinheiro. E ele foi o mote para que Ice Cube, um dos principais compositores do grupo, pulasse fora ao se deparar com o ‘modelo de negócios’ instituído por Eazy-E e o empresário Jerry Heller, que excluíam os demais integrantes do contrato de direitos autorais.
Ice Cube iniciou carreira solo e foi visto como ‘traidor’. Tanto que o EP 100 Miles and Runnin’ (1990) e o segundo álbum do N.W.A., Efil4zaggin (1991), mostravam uma série de provocações ao ex-MC do grupo – que também devolveu-os de forma contundente em faixas de AmeriKKKa’s Most Wanted (1990) e Death Certificate (1991).
Habilidoso em saber usar a melhor batida e paciente em captar os melhores flows, o ouvido de Dr. Dre era admirado e consagrado por toda Costa Oeste
Após reavaliar os contratos, Dr. Dre também debandou. Uniu-se ao empresário turrão Suge Knight e deu início à Death Row Records. O sucesso do empreendimento viria logo com o lançamento de seu primeiro disco, The Chronic, e isso era fácil de entender: naquele momento, todo mundo queria ter a produção de Dre. Habilidoso em saber usar a melhor batida e paciente em captar os melhores flows, o ouvido de Dre era admirado e consagrado por toda Costa Oeste.
Foi por isso mesmo que Snoop Dogg ficou pasmo quando recebeu uma ligação dele. Dre o conheceu após vê-lo fazer um freestyle em “Hold On”, de En Vogue. A primeira parceria foi selada com o tema principal do filme Traindo o Inimigo (1992), com Larry Fishbourne. O sucesso dessa parceria foi crucial para que Dre colocasse Snoop como o parceiro mais onipresente em Chronic.
Logo no interlúdio, o rapper de Long Beach já entra com vigor, celebrando a Death Row. Em seguida, “Fuck Wit’ Dre Day (And Everybody’s Celebratin’)” surge com Dre aloprando o ex-parceiro de N.W.A.: ‘Pisando nas ruas de Eazy-est em que você pode andar’, fazendo um trocadilho do nome do rapper com ‘algo leviano’. Em seguida, Snoop emenda: ‘Se você fode com o Dre, nigga, você fode com a Death Row’.
A partir de “Let Me Ride”, a contribuição de Chronic prova ser estética. O uso dos loops de baixo do Parliament deu os primeiros passos para o que ficou conhecido como G-Funk – bem sedimentado em Doggystyle (1993). Os vocais R&B de Jewell no refrão não deixam de ser sintomáticos. Ela disse ao L.A. Weekly:
“Minha forma de cantar sobre as letras pesadas de rap deles funcionou bem. O rap nunca tinha aceitado aquilo antes. Coloquei meu estilo suave, R&B cantante naqueles discos. Agora, todos os rappers têm que ter vocais femininos em suas músicas”.
“The Days the Niggaz Took Over” é gangsta rap por sua excelência. Faz referência aos protestos que ocorreram em Los Angeles após dois policiais serem flagrados por câmeras espancando o taxista negro Rodney King. O vídeo foi registrado por Matthew McDaniel, que trabalhava na rádio KDAY, dedicada só ao hip hop. Ele entrou em contato com Dr. Dre e mostrou o que havia captado.
“Nuthin’ But A ‘G’ Thang” tornou-se um dos maiores hits da parceria Snoop-Dre, mas não foi escrita por nenhum dos dois: ela foi composta por The D.O.C.
Trechos desse material instigaram e foram incorporados à canção – incluindo o discurso de resistência de Rodney: ‘Se você não abaixar a arma, por todos aqueles que sofreram na África do Sul, do apartheid e todas aquelas merdas…’. Um dos policiais bateu em seus ombros, e disse: ‘Se eu tiver que morrer hoje mesmo para que esse africanozinho aqui tenha futuro, sou um filho da puta morto agora mesmo’. (No final das contas: Rodney foi espancado e os policiais foram absolvidos, gerando uma onda de protestos.)
Esse foi apenas um dos muitos episódios velados que mostravam como a polícia de Los Angeles reprimia sem dó qualquer negro que viesse do gueto. Isso gerou um afastamento social, devolvido com a violência nas rimas tão usuais ao N.W.A. e ainda mantido pelos rappers que trabalharam com Dre em Chronic. É este, também, o pano de fundo por trás da melódica “Lil’ Ghetto Boy”. Com sampler de Donny Hathaway, Dat Nigga Daz canta: ‘Aprendi muitas coisas que vieram da rua/O resultado disso foi o que me formou’.
O tom incendiário é preponderante no disco. “A Nigga Witta Gun” e “Lyrical Gangbang” são dotadas da agressividade típica dos rappers de Compton, que assimilam a repressão policial em suas rimas de forma crua e voraz. “Nuthin’ But a ‘G’ Thang” tornou-se um dos maiores hits da parceria Snoop-Dre, mas não foi escrita por nenhum dos dois: ela foi composta por The D.O.C., que havia escrito canções para o N.W.A. após a saída de Ice Cube e estava impedido de seguir carreira por conta de um problema na laringe. Naquela época, ele morava com Snoop Dogg, e os dois escreveram a canção na mesma casa. D.O.C. explicou:
“Realmente ela era um quebra-cabeças. Então eu disse: ‘no último verso de Dr. Dre, coloca o meu nome’ porque, de qualquer forma, eu não poderia cantá-la. É por isso que Dre diz: ‘Como meu camarada D.O.C./Ninguém faz isso melhor’”.
Com o passar do disco, Dre vai cedendo mais os vocais a outros rappers, focando mais no processo de produção. Em “High Powered”, é RBX quem manda a letra: ‘É matar ou morrer/É assim que os negros sobrevivem’. “Stranded On Death Row” dá status de máfia à gravadora, com rimas adicionais pesadas de Kurupt e The Lady of Rage, além de RBX e Snoop Dogg.
“The Roach” e “Bitches Ain’t Shit” deixam mais uma vez levar-se pelo G-Funk – a primeira com sampler do Parliament, e a última pelo Funkadelic, ambos projetos de George Clinton dos anos 1970. Por mais que o título soe misógino, a canção final de Chronic é mais um dos ataques a Eazy-E e Jerry Heller, que só cederam o contrato a Dre após as pressões violentas de Suge Knight (que, anos depois, foi condenado pelo suposto envolvimento no assassinato de Notorious B.I.G.).
E, sabe o que é mais irônico? Mesmo após trabalhos bem-sucedidos com a gravadora que montou, Dre decidiu abandonar de vez a Death Row, em meados de 1996. Dre não levou nada – migrou de vez para a Interscope e criou um selo próprio, Aftermath, que se reergueu muito bem com artistas como 50Cent, Eminem e, bem depois, Kendrick Lamar em seu catálogo. Por conta disso, Dre teve problemas para obter os direitos legais de Chronic: após uma longa batalha na Justiça com a falência da Death Row (que se deu em 2006), em 2011 o produtor obteve os direitos por seus royalties e autonomia sobre a obra – tanto que ele só disponibilizou o disco para o serviço de streaming da Apple, que detém propriedade dos fones ‘Beats by Dr. Dre’. Negócios.
