
Charles Mingus em apresentação no Dia da Independência dos Estados Unidos, em 1976
Em 1963, com apenas três anos de existência, a gravadora Impulse Records já tinha em seu catálogo LPs de alguns dos mais grandiosos jazzistas daquele tempo, com destaque para John Coltrane, Coleman Hawkins, Count Basie e até mesmo discos do orquestral pianista Duke Ellington. Naquele tempo, o bebop florescia como um movimento mais sofisticado no meio jazzístico, talvez em contraponto ao revivalismo da década de 30 que, para alguns deles, não passava de um exercício de ostracismo que impedia a evolução do jazz.
Essa nova vanguarda de músicos (muito virtuosos por sinal) foi responsável por registros históricos em toda a discografia jazzística, e a Impulse estava ali no cerne, graças ao empenho e à habilidade produtora de Creed Taylor – responsável, para quem não sabe, por exportar a Bossa Nova para os Estados Unidos e o resto do mundo nos anos 60, promovendo shows de Tom Jobim, João Gilberto e Astrud Gilberto.
Por mais que a calmaria fosse mais vendável, o baixista e bandleader Charles Mingus decidiu que tinha que inovar na gravação de seu novo trabalho. Inovar no sentido rítmico, na velocidade de composição, nas novas possibilidades de notas e acordes tiradas dos instrumentos.
Talvez essa fosse sua busca eterna, mas foi em The Black Saint and The Sinner Lady que o vulcão de experimentalismos instrumentais entrou em erupção. Neste álbum, vemos o barítono ululante de Jerome Richardson formar um contraponto anárquico ao sax alto de Charlie Mariano de forma que não dá para acompanhar: seria o que alguns consideravam ‘música para músicos’, mas a sonoridade extraída é excelente.
É praticamente unânime: The Black Saint… é uma das maiores obras orquestrais de jazz. De acordo com a publicação All Music, o álbum é um “exame de sua [de Mingus] psique torturada, assim como também é uma obra conceitual sobre amor e luta”.
Ao assumir o contrabaixo e o piano, Mingus criou uma composição contínua, com partes escritas na forma de uma peça conceitual de balé, já inovando na determinação do gênero que havia criado (e que não foi repetido, pelo menos comparativamente): o gênero, segundo ele, era o ‘folk dançante étnico’ – a começar pela mescla de músicos brancos e negros, um paradigma que começava a ser quebrado naquele período. A atmosfera conceitual era tão exacerbada, que Mingus chegou a convidar seu psicoterapeuta para ajudar a escrever o encarte (!).
Com apenas quatro atos em cerca de 37 minutos, The Black Saint… é tão pungente, que soa como se colocasse em um liquidificador de alta voltagem elétrica diversos sentimentos pulsantes, misturando densidade amorosa, corrosão violenta e repulsa, tudo da forma mais genuína possível.
Não é à toa que um dos mais conceituados críticos europeus de jazz, Piero Scaruffi, nomeou The Black Saint and The Sinner Lady o maior disco jazzístico de todos os tempos (excluindo os períodos pré-anos 40, quando ainda não existia o conceito de álbum).
Ouça o álbum na íntegra abaixo:
