
01 Just Like Honey 02 The Living End 03 Taste the Floor 04 The Hardest Walk 05 Cut Dead 06 In a Hole 07 Taste of Cindy 08 Never Understand 09 Inside Me 10 Sowing Seeds 11 My Little Underground 12 You Trip Me Up 13 Something’s Wrong
14 It’s So Hard
Gravadora: Blanco y Negro
Data de Lançamento: 18 de novembro de 1985
Pode o barulho trazer consigo a emoção? Dizem que o incômodo é a reação natural a qualquer sonoridade indesejada, mas para isso vale a pena entender a lógica do músico Masami Akita, do barulhentíssimo Merzbow: “Se com noise você quer dizer som desconfortável, então música pop é noise para mim”.
Essa arenga entre barulho vs. ‘música de verdade’ já é algo que deveria ser considerado ultrapassado. Dos revolucionários Edgard Varèse (idolatrado por Frank Zappa) e John Cage à cena noisy japonesa que também inclui Mainliner e Boris, o barulho já foi reprocessado e reinserido no contexto musical diversas vezes. Há de se dizer que um dos grandes legados do século XX no campo musical é a assimilação pelo barulho.
Antes dos escoceses The Jesus & Mary Chain, essa discussão ainda causava embates. Mas depois de Psychocandy o que se convém chamar de música pop barulhenta nunca mais teve o mesmo sentido. Ou, ao menos, não deveria ter.
Criada pelos irmãos desempregados Jim e William Reid em 1983, depois de muito ouvir The Shangri-Las e The Stooges eles criaram suas próprias composições em busca de uma linguagem, ainda que pareça acidental, de um equilíbrio entre pop e noise.
Com a emoção adolescente dos Ramones numa visceralidade estética próxima de um White Light/White Heat (1968), o barulho proposto pelas guitarras ganha diferentes significados nas composições dos irmãos Reid. Em “Just Like Honey”, segura a vontade de ter aquela garota com ar superior. “Something’s Wrong” preenche o vazio de não ter mais aquela paixão por quem ficou próximo por muito tempo: ‘Me sinto estranho/Preciso de mudança/Tem alguma coisa errada’. Daí surge o solo inspirador no meio da canção.
“Just Like Honey”, que inicia o disco, já foi trilha de uma porrada de seriados adolescentes, mas foi no final do filme Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Copolla, que obteve mais impacto. É um bom cartão de visitas, mas não oferece cartilha do que se encontra em Psychocandy.
Apesar da estrutura parecida de vocais calmos em contraste com as guitarras flamejantes, Jesus & Mary Chain modula diferentes reações e expressões, em que as letras formam o guia e a instrumentação ácida, um sem número de válvulas de escape testosterônicas: “The Living End” chama o pogo das melhores rodas punk; “The Hardest Walk” é a explosão que o personagem solitário cantado por Jim quer soltar após ver-se ‘atado a um barraco’.
Para cada empreitada sentimental como “Cut Dead” ou “Some Candy Talk”, a banda devolve com o mesmo nível de tosqueira intencional e avassaladora em músicas em que o peso corresponde com o barulho, como as incendiárias “In a Hole” e “Never Understand” que, como foi bem dito, une os contrapontos de The Beach Boys e Velvet Underground.
Ouvindo hoje, pode parecer que Psychocandy tinha toda a receita possível para não ser bem aceito. Mas felizmente eles obtiveram bom reconhecimento do trabalho: após estourarem no Reino Unido com o single “Upside Down”, a banda conseguiu contrato com a Blanco y Negro, com distribuição da grande Warner Bros. Além dos irmãos Reid, naquele momento a banda era completada pelo baixista Douglas Hart e o conhecido Bobby Gillespie na bateria, apenas como substituto de Murray Dalglish. (Gillespie só serviria de apoio para a gravação de Psychocandy mesmo, pois estava se dedicando ao Primal Scream, criado em 1982.)
Seria difícil pensar um cenário posterior de rock alternativo sem o The Jesus & Mary Chain: além de serem padrinhos do shoegaze (dividindo a coroa com Cocteau Twins), travaram de forma pioneira um novo jeito de inserir as guitarras na estrutura roqueira. Houve aprimoramentos e excessos nessa direção, mas a realidade é que poucos álbuns se mantêm, com o passar do tempo, tão impactantes e rejuvenescedores como Psychocandy.
Eis o grande exemplo de encontro bem-sucedido entre música pop e música barulhenta.
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Fique esperto: no dia 25 de maio o The Jesus & Mary Chain vai tocar na íntegra Psychocandy no Festival Cultura Inglesa. Informe-se mais.
