01 Rival Dealer 02 Hiders

03 Come Down To Us

Gravadora: Hyperdub

O dubstep pode ter dado os primeiros passos com Untrue (2007), mas quando se fala em Burial uma coisa é certa: nada será previsível no gênero.

Porque o dubstep foi apenas um termo aproximado para condensar seu método de modular downtempo e uptempo em frequências quase orgânicas. Pode não haver sentimento, mas o som de Burial é o que mais se assemelha com batimentos cardíacos na eletrônica produzida atualmente.

Rival Dealer, que segue uma sucessão de EPs que o Burial lança aos fins de ano (mire e veja: Kindred/Street Halo e Truant/Rough Sleep foram lançados nessa mesma época nos últimos dois anos), é um passo ainda mais ousado na proposta que Willian Bevan direcionou sua cria. Os samplers e vozes flertam com sexualidade e questões de existência que poderiam ser superficiais.

Ao contrário do que o The Knife prega ao exacerbar a discussão com batidas saturadas, a forma com que o Burial insere os vocais são entendidas como pensamentos aleatórios. No entanto, esses pensamentos têm grande fixação.

Nos minutos finais da faixa-título, Bevan quebra o clima rave como se estivesse distanciando aos poucos daquilo. Ele chega a um ambiente calmo e parece conversar com alguém que o tenha impressionado. Vocais robóticos e uma atmosfera futurista nos remetem a um momento de reflexão Blade Runner, onde o sentimento é a única brecha possível diante da distopia caótica alastrada ao redor.

“Hiders” surge como uma adaptação à distopia. Inicia vagarosa, mas quando as batidas de uptempo entram percebemos que o controle não fugiu das mãos do Burial. Ele excita por poucos segundos, até arrefecer a um gospel-robótico (?!?) que sugere varredura total.

Desses escombros nasce a faixa mais melancólica já feita pelo Burial. Aquele piano das músicas românticas mais conhecidas dos anos 1980 e o vocal sofrido dão a “Come Down To Us” uma aura orgânica. Se aquilo corrói Bevan, também corrói o ouvinte.

Dificilmente você irá se deparar com uma faixa tão tocante em 2013 como “Come Down To Us”. Nela, o Burial manda um foda-se oculto para dubstep, categorização ou qualquer outro termo já utilizado na tentativa de definí-lo. Música oriental em arpeggio, batidas cromáticas e uma espécie de defasagem massiva mostram um Burial que ainda não conhecíamos. É o momento balada e tristonho do cara que revolucionou a eletrônica pós-anos 2000. E nessa atmosfera de melancolia particular, ficamos rendidos.

Somos puxados a um cubo que curiosamente nos convence de que a eletrônica nos faz sentir e pensar. Muitos tentaram isso ao longo do tempo, mas pouquíssimos tiveram tanto êxito como o Burial teve em “Come Down To Us”.

A canção em que ele mais deveria se expor é a que mais levanta questionamentos: qual o papel do Burial na eletrônica atual? Ele contribui com o gênero ou o transcende de maneira incopiável? O que será que ele quis dizer ao incluir o discurso da diretora Lana Wachowski (que, com o irmão Andy, dirigiu a trilogia Matrix) na Campanha dos Direitos Humanos – marcante no momento em que diz ‘sou transexual, e isso não significa que sou indigno de ser amado’?

Não sei o que é. Mas é excepcional.

Melhores Faixas: ouça todas.