Créditos da imagem: Thierry Freitas

“E aí, crio asas. E aí, elas querem voar”: foi com os versos da contemplativa “Sem Fazer Ideia” que a cantora baiana/pernambucana Karina Buhr começou, sem meias palavras, o show de lançamento do disco Longe de Onde, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

O legal do show de Karina é que ela se mantém absolutamente em sintonia com o público. De início, ela chegou meio tímida e, na sequência, também tocou “Pra Ser Romântica”. Até aí, estávamos receosos do que ainda estaria por vir. Direta ao ponto, ela mesmo chegou a afirmar um pouco mais pra frente que “disse pra mamãe que não iria fazer discurso”.

Em alguns momentos, ela simulava um castigo aos músicos: girava o fio do microfone na cabeça de Catatau, engatinhava aos pés de Scandurra, dava uns tapões nos pratos da bateria de Bruno…

Depois de alguns ‘copos de veneno’, ela foi se soltando e o público não demorou a ser absorvido por suas entranhas. Dando sustentação ao mal do falatório, ela cantou “A Pessoa Morre”. Quem brilhou neste momento foi o guitarrista Fernando Catatau, que mostrou com exuberância seus solos espaçosos que dão profundidade à canção.

Aliás, o time de músicos é uma atração à parte. Karina era a rainha de uma fortaleza dionisíaca: à sua esquerda, tinha Edgard Scandurra arrebentando em solos crus e riffs ligeiros no alto de sua guitarra; à sua direita, Catatau, que sintetizava a profusão sonora com solos mais viajandões (em “Guitarristas de Copacabana”, ele fez uma jam funk assombrosa!); e, pelo fundo, os virtuosos Bruno Buarque (bateria), Mau (baixo) e Guizado (trompete).

Como em um tabuleiro de xadrez, Mau representava todos os peões, já que abria espaço para que os demais pudessem se movimentar livremente. Ele modulava a velocidade nos vocais de Karina com seu baixo ora acelerado, ora devagar. Guizado era implacável como os bispos: pronto pra pegar no meio do caminho todo mundo de surpresa. Scandurra, direto ao ponto, era a torre. E Karina – ah! Karina – era a rainha impiedosa com voracidade de sobra para devorar o público. Em “Cadáver” e “Copo de Veneno”, vimos uma performance catártica, vibrante. Nos solos de trompete, Guizado estava quase virando fumaça depois de arrebentar o fôlego com solos intermitentes.

Quando quis falar, Karina alfinetou de leve os blogueiros e jornalistas (“aqui na frente tem gente com caneta e papel na mão, pra fazer anotações(…) Deixa rolar, minha gente!!!”) e até pediu apoio à plateia para escolher a próxima música do show. Alguns gritaram “Eu Menti Pra Você” – “’Eu Menti Pra Você’ não, é muito morgada”. A banda repetiu “Guitarristas de Copacabana” depois de tocar inteiríssimo o disco Longe de Onde.

Em alguns momentos, ela simulava um castigo aos músicos: girava o fio do microfone na cabeça de Catatau, engatinhava aos pés de Scandurra, dava uns tapões nos pratos da bateria de Bruno, atrapalhava Mau nos baixos, fazia caretas ao lado de Guizado… além de cantar todas as músicas, o público se divertia com os movimentos intrépidos e inusitados da cantora.

Também houve espaço para alguns hits de Eu Menti Pra Você: a ótima “Nassira e Najaf”, com direito a gritos estridentes de Karina; a própria faixa-título, além da icônica “Ciranda do Incentivo”, em que o público dançou ao som de um technobrega em crítica à indústria fonográfica. Karina rebolou como uma dançarina do Mastruz com Leite, enquanto a banda fazia uma ponte entre o som paraense, pernambucano, baiano, paulistano… Bem multirregional mesmo.

Ninguém queria ir embora dali. O público gritava, depois de muitas idas e vindas que resultaram em um show fora dos padrões: cerca de 1h30 de duração. E o que todos gritavam? ‘Karina, fica!’