Gravadora: Transfusão Noise
Data de Lançamento: 11 de março de 2016
As guitarras, ah, as guitarras. Quando se fala de rock nacional, elas são lamentavelmente colocadas em segundo plano, especialmente quando se trata de música pop. E quanto ao rock fora do circuito FM? Temos Vinícius Pacheco (Sin Ayuda), Yury Hermuche (FireFriend) e Fausto Alencar (Camarones Orquestra Guitarrística)… Mas, antes de todos eles, vem o carioca Lê Almeida.
O novo álbum, Mantra Happening, faz um uso massivo das guitarras como nenhum outro disco anterior dele. Lembra quando em discos como REVI (2009) e Mono Maçã (2011) predominavam as faixas curtas? Eis que agora ele resolveu fazer tudo completamente diferente: inspirado por Fela Kuti, Mantra Happening é composto por apenas cinco faixas – três delas com mais de 10 minutos.
Isso possibilitou a Lê Almeida e sua banda, completada por João (guitarra), Bigú (baixo) e Joab (bateria e voz), explorar minuciosamente texturas de cordas.
A psicodelia pode ser um caminho, mas pense nas grandes jams sessentistas, em Country Joe & The Fish ou em algum ato desconhecido arrebentando em Fillmore. Allman Brothers Band e Spiritualized também podem servir como base, mas a grande real é que Lê Almeida estava numa good vibe.
Ao contrário de Paraleloplasmos (um dos melhores discos nacionais de 2015), pautado pelo fim de um relacionamento, Mantra Happening é conduzido por um estado de espírito mais positivista. Em entrevista ao Noisey, Lê afirmou que está de namorada nova, um ponto de partida interessante para essa nova ‘fase’.
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‘Eu cruzei o sol/Só pra te ver mais de perto/Eu cruzaria todo/Sem pensar um deserto’, canta ele em “Enamorandius”. ‘Só pra te ter meu bem/Só pra te namorar’. Essa é a letra completa da canção, num total de 7:35 – uma das mais curtas do disco. Diretamente, essa jornada dá um sentido de ‘extensão’ da felicidade. Os loopings de guitarra são circulares, uma forma de permanecer aqueles mesmos segundos eternamente, prolongando aquilo que Lê considera bom pra ele. E não pense que pende pras baladas: o disco é rock pauleira mesmo!

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A música que abre o disco, “Oração de Noite Cheia”, foca na passagem do tempo, do entardecer à ‘lua clarear’. Pela extensão, 15 minutos, dá pra acreditar que Lê Almeida teria disposição para ficar esse tempo todo, contemplando, tocando e nos agraciando. Não fosse o som vigoroso, daria pra acreditar que seria a ‘estatização sonora’. Mas a dinâmica é flamejante, cáustica, space-punk-psicodélico, se assim podemos dizer.
“Ao vivo ele tem uma onda de ser um show completo com abertura-baladinha-rockão-mantra do adeus. Eu penso muito na gente tocando ele em uns bailes de rock pelo interior, na madruga”, disse Lê ao Noisey, ao analisar o disco. Sentimos essa pegada live justamente nesta canção, e isso também nos enche desse otimismo que ele incorporou musicalmente.
Gravado em fitas cassete, num “modo orquestrado” de pitch, no formato lo-fi já convencional ao trabalho de Lê Almeida, Mantra Happening é um álbum para apreciar a banda, seus feitos, sua inventividade roqueira. O aspecto emocional justifica o entrosamento, mas, melhor que isso, aponta para uma sonoridade que o pop nacional parece ter medo de fazer. Talvez o segredo seja mais simples do que se imagina: deixar a espontaneidade dos sentimentos tomar conta de tudo.
Outros lançamentos relevantes:
• La Yegros: Magnetismo (Soundway)
• The KVB: Of Desire (Metropolis / Metropolis)
• Jeff Buckley: You and I (Columbia / Legacy / Sony Music)
