Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: 6 de maio de 2014
Folk, eletrônica, música tribal, indie rock. Não importa qual se sobressai ou qual é mais presente, uma coisa é certa: para Merrill Garbus, esses gêneros são os seus brinquedos manipuláveis. Como criança, ela mexe, bagunça, transfigura, arrebenta. E como é de se esperar, se espatifam.
A fórmula timidamente apresentada em BiRd-BrAiNs (2009) e consagrada em w h o k i l l (2011) ganha contornos mais enfáticos. O tUnE-yArDs expandiu seu campo de alcance, abrangendo experimentações com outros gêneros como trip-hop (“Look Around”) e pós-punk (“Time of Dark”), entre outros.
As menções de gênero em Nikki Nack são importantes, mas não menos que as intenções de Merrill: digamos que ela foi mais bem-sucedida em transparecer suas questões e crônicas com a sonoridade mais oportuna ao assunto.
Com relativa felicidade, celebra a vida em “Hey Life” alternando a seriedade em passagens em que diz ‘incrível como um ser humano ainda pode prosperar’, com a euforia de teclados e percussões, para exemplificar a ‘correria’ perpassada no refrão. É como se ela chamasse o ouvinte para um drinque.
Em relação ao segundo disco, Nikki Nack tem a conotação de assimilar melhor a maturidade. As mencionadas “Look Around” e “Time of Dark” podem ser reflexos dessa inevitabilidade.
“Stop That Man” entra nesse rol com seu aspecto Fritz Lang século XXI, mas a transfiguração aplicada por Garbus soa difusa e a canção perde qualquer significado.
A seguinte “Wait For a Minute”, ainda down, é preguiçosa: seus beats, sem intenção de se aproximar das pistas, soam deslocados na faixa, revelando um cansaço incômodo. Se foi uma experiência ruim pra ela, pior será para o ouvinte.
Num apanhado geral, Nikki Nack não é um álbum triste, mas não é uma obra que vá agradar quem esperava a força de singles como “Gangsta” e “Bizness”. Dentro de uma proposta que se quer pulsante, o disco soa como um apanhado de experimentos mal-sucedidos que não encontram eixo.
Há de se louvar a forma com que Merrill encontra diferentes notas vocais em “Rocking Chair”, colocando no mesmo balaio ritual africano e tradição irlandesa; seu canto ágil em “Sink-O” é posto numa produção soberba que deixará Nicki Minaj de olhos arregalados; “Water Fountain”, a melhor e mais notável faixa do álbum, relativiza sua característica já aprimorada nos dois discos anteriores, com uma pitadinha de que lembra Major Lazer.
O louvor, por si próprio, não sustenta um disco. Assim, Nikki Nack soa como um desperdício das invejáveis habilidades de Merrill.
Se estamos falando de um projeto de teor experimental, faltou o estímulo para desvendarmos (ou ao menos tentar desvendar) o caminho. O fato de as manipulações sônicas do tUnE-yArds tornarem-se mais fragmentárias resultou em algo deslocado, espécie de universo paralelo infantil de onde não se extrai substância mais profunda que mera imaginação.
