
Por ter trabalhado com Bill Evans no piano, que ajudou a conduzir a aura de Kind of Blue, e ter sido influenciado por Gil Evans que, além de ter escrito as partituras de discos clássicos como Miles Ahead, Porgy and Bess, Sketches of Spain, entre outros, Miles Davis chegou a afirmar que o sobrenome Evans é abençoado. Se ele tivesse a oportunidade de acompanhar o trabalho de um certo Orrin Evans, não iria se decepcionar.
Também pianista, Orrin já está na ativa desde 1994 e seu mais recente projeto, o Captain Black Big Band, deu o que falar no mundo do jazz no ano passado.
A big band é formada por até 39 integrantes no total. À primeira vista, parece que vamos nos deparar com uma banda de concerto erudito, mas essa impressão se esvai a partir do momento em que eles entoam os primeiros acordes de “Art of War”, um hard-bop poderoso com sessões de sopro inspiradas em John Coltrane. Essa música é constituída de uma libertinagem contida que soa límpida aos ouvidos, com belas pontuações no sax alto de Todd Bashore.
“Here’s the Captain” é uma balada levada ao piano que aos poucos se encontra com ritmos caribenhos. O início é lúgubre e improvável, mas em pouco tempo Orrin dá entrada para as baterias criarem o gingado e os trombones flertarem lindamente.
Essa verve é novamente levantada em “Inheritance”, que mostra o poder do clarinete criando uma sonoridade aguda tempestuosa que, além de dar um tom moderno ao latin-jazz, é quase como uma maré, uma praieira. Dá vontade de ficar de sunga, colocar os óculos escuros, apreciar o sol e fazer leves movimentos com o braço para acompanhar na preguiça.
A maioria das canções do disco homônimo Captain Black Big Band são levadas pelos arranjos de Orrin Evans. Há um choque entre o fusion jazz e referências orientais em “Big Jimmy”, como se ela fosse composta no sol nascente, e uma forte proximidade com a fase orquestral de Miles em “Captain Black”, que foi originalmente escrita em 1998 por Orrin.
Mas o grande destaque fica por conta de “Jena 6”, última canção do disco. Orrin encanta logo de início como se fosse um Dave Brubeck vertiginoso em seu piano, dando o sentido de nervosismo, ânsia, repulsa. Depois, entram as sessões de sopro que soam dramáticas até que, abruptamente, o lamento vai se tornando uma possibilidade de retorno, um crescimento. Os sopros vigorantes de Jaleel Shaw lembram bastante Sonny Rollins em seus melhores momentos, mas o choque que se dá ao fundo por órgãos e uma sessão suja, repulsiva, dão leves tons anárquicos à canção.
Com apenas um álbum lançado, Captain Black Big Band não precisa do aval de um músico experiente de jazz para encantar. Seus ouvidos farão esse papel.
