No palco, o Racionais MCs funciona como um Odd Future, com a diferença de ter mais de 25 anos de experiência no currículo. Quando se vê mais de 10 pessoas juntas em um pequeno espaço, temos uma impressão opressiva de que eles vão derrubar tudo. E a ideia é mesmo essa: derrubar com as rimas costumeiramente fortes e pesadas.
Ficou no ar indícios de que o Racionais quer elevar-se como família e que suas próprias produções tendem a ficar em segundo plano
Só que, de 2002 pra cá, muita coisa mudou pro Racionais. Nada Como Um Dia Após o Outro Dia é direto e reto, mas as últimas faixas do grupo (que não estão em nenhum CD) mostram que eles também estão evoluindo, por mais estranho que isso possa parecer.
O rap está lá, mas Mano Brown e companhia estão mais funky, mais dançantes, numa pegada mais salão. Há vinte anos atrás, quem imaginaria que eles teriam um backing vocal potente como Lino Cris? Ou que teriam alguma relação com a emblemática Banda Black Rio?
Pois é, estes caminhos de mudança ficaram evidentes no primeiro show do grupo, realizado ontem (27 de abril) no Sesc Pompeia.
Eles abriram com “Da Ponte Pra Cá” “1 Por Amor 2 Por Dinheiro” (como bem observou DJ Cia). Houve uma sequência de canções de Nada Como Um Dia…, mas quem aguardava canções clássicas como “Homem na Estrada”, “Fim de Semana no Parque” ou “Rapaz Comum” provavelmente se decepcionou. Tirando “Diário de um Detento”, o repertório focou no último disco (de 2002!) e nas novas faixas que pululam na rede, como “Cores e Valores” e “Mente do Vilão”.
No show, Mano Brown foi o destaque esperado. Como líder da gang, deixou o público rouco de tanto cantar com “Vida Loka Parte I” e “V.L. Pt. II”. Ice Blue, com seu vocal de presença, surgiu como coadjuvante natural, enquanto os outros integrantes faziam gesticulações para interpretar as letras das músicas.
Edi Rock, que assina pelo menos metade de todo o repertório dos Racionais, ficou um pouco ofuscado. Compensou ao cantar a primeira metade de “Negro Drama” e “A Vítima”. Mas sua estrela brilhou mesmo quando tocou a novíssima “That’s My Way”, de seu aguardado disco solo. Lino Cris evocou o refrão se inspirando nos bailes funk dos anos 70, com um vozeirão que cumpriu o difícil papel de substituir Seu Jorge.
Mano Brown anunciou a entrada de Dexter como a grande surpresa da noite (ele tocou “Oitavo Anjo”, do 509-E), mas choque mesmo foi o repentino surgimento de Projota, que tocou a sua conhecida “Não Há Lugar no Mundo Melhor que o Nosso Lugar”.
Isso prova que o grupo está antenado com as novas figuras da cena. Ficou no ar indícios de que o Racionais quer elevar-se como família e que suas próprias produções tendem a ficar em segundo plano. Eles querem abraçar a nova cena, mas no sentido de querer produzir, propagar, recomendar, fortalecer. Um provável disco novo é consequência natural com o atual andamento das coisas.
O Racionais está começando a perceber que é uma lenda – assim como o novo disco. O tempo passou e os próprios integrantes se descobriram melhor durante esse longo hiato. No palco, o clima eletrizante perdura. Mas, se você quer ir ao show em busca de nostalgia, esqueça; fique nos CDs.
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Racionais continua com as apresentações no Sesc Pompeia nos dias 27 (hoje), 28 e 29 de abril. Ingresso é ouro: estão todos esgotados!
Créditos da imagem: Leonardo Soares, para o UOL Música.
