01 Going Home 02 Amen 03 Show Me The Place 04 The Darkness 05 Anyhow 06 Crazy To Love You 07 Come Healing 08 Banjo 09 Lullaby

10 Different Sides

Gravadora: Columbia

Foi preciso uma derrocada milionária na conta de Leonard Cohen para que ele pudesse voltar à ativa com tudo: no final de 2005, o músico teve um contratempo sério com a manager Kelley Lynch, que fez um rombo em sua conta. Dos US$ 5 milhões de seu fundo de aposentadoria, restou US$ 150 mil.

Daí, foi preciso agendar novas turnês e se apresentar novamente ao público. Entre 2008 e 2010, fez um total de 247 shows (cada um com cerca de 3h de duração) e chegou a compor na estrada mesmo algumas das canções de Old Ideas.

Se Leonard Cohen conseguirá juntar o montante milionário mais uma vez, fica difícil prever. Mas, na pior das hipóteses, o embargo foi essencial para que o bardo gravasse um de seus melhores discos.

O título é praticamente óbvio: não espere nada de novo do compositor e poeta canadense de 77 anos de idade. Pelo menos, nenhuma ruptura estética.

As composições intimistas beiram temas que vão da aparente falta de beleza – irônica, quase divertida (“Sou velho/E os espelhos não mentem”, canta em “Crazy to Love You”) – à resignação perante a proximidade da morte, como ele canta em “Darkness”: “Não tenho futuro/Sei que meus dias são curtos”.

Ainda que os temas pudessem fazer parte do sermão de nossos avós, Leonard Cohen é o poeta-mor da música pop. Não porque Jeff Buckley, Bill Calaham e Bradford Cox interpretaram alguns de seus maiores clássicos, mas porque a profundidade de sua poesia tem o poder de infiltrar em qualquer ouvinte que preste atenção nas composições.

Sua voz pode não ser a mais qualificada, mas é a melhor para soltar aquilo que ele tem para dizer: seja em terceira pessoa ao falar que “não é nada, apenas uma breve elaboração” em “Going Home”, ou na objetiva “Show Me the Place”: “Me mostre o lugar/Onde começa o sofrimento”.

A obscuridade do som de Leonard Cohen, mais uma vez, é interpolada pelos violões, pianos e vozes femininas ao fundo. Em “Darkness”, a síncope soa quase diabólica, apresentando o fim como algo inevitável já previsto por todos nós. Mesmo para ele, que “não fuma nenhum cigarro e não bebe álcool/(…)Não tenho gosto por mais nada”.

Todas as 10 canções têm um quê de algo clássico. Você pode não ser religioso, mas vai ficar embebecido com o verso “Conte-me novamente que você sabe o que estou pensando/A vingança pertence aos chatos”. “Come Healing”, com a introdução com vocais femininos, tem um ar messiânico, quase gospel. E, levada em uma construção poética blueseira, “Banjo” é permeada por uma voz country que, sem disparates, lembra Johnny Cash.

E o que dizer de “Different Sides”, então? A canção que encerra Old Ideas reflete, em dois versos, como pode ter início o desequilíbrio amoroso – ou mesmo como ele pode dar certo em outros relacionamentos: “Eu digo que você não deve, não poderia, não pode/Você diz que deve, e vai lá e faz” – e ele, claro, aceita. Esse capítulo na biografia de Leonard Cohen já é conhecido.

Velhas ideias em tempos novos, sem soar nostálgico, é quase uma façanha. Aqui, o que conta é a força da poesia – e Leonard Cohen é um dos grandes mestres dessa arte.

A seguir, ouça Old Ideas na íntegra: