Gravadora: Weird World
Data de Lançamento: 23 de junho de 2014

A capa de What is This Heart? não omite a tristeza que já tornou-se intrínseca à obra de How to Dress Well. Em Love Remains (2010) e Total Loss (2012), Tom Krell criou uma estrutura lo-fi tão melancolicamente delineada, que logo começou a ser catalogado como cantor R&B.

As percepções sobre o gênero tornaram-se mais expansivas: de Beyoncé a FKA twigs, o R&B está lá.

HTDW também se enumera por ali, colaborando mais por seu trejeito soturno de cantar. É o meio termo entre o pop-minimalista propagado após o The xx com toques pincelados de Maxwell, Aloe Blacc, Mayer Hawthorne. (Pende mais pro lado minimalista, provocando a discussão se realmente o R&B seria o melhor gênero a se encaixar aqui.)

Não importa a discussão estética que Tom Krell gere: What is This Heart? é um livro complexo de aventuras sentimentais, vindas dum personagem que tem no ouvinte o melhor confidente.

Ainda que o single “Repeat Pleasure” seja destinado à pessoa com o ‘sol refletido nos olhos’, é a terceira pessoa quem mais fica perplexa. A forma com que o cantor despeja suas emoções gera um vibrato que extrapola o universo da garota ideal e o rapaz que a deseja, forçando o ouvinte a ser testemunha dessa delicada relação.

Tem-se impressão parecida com “Precious Love”, só que noutro formato. Mais íntimo e retraído, Krell faz com que as batidas aceleradas de um eletrônico, que poderia ser pop, desperte a curiosidade e transforme-se numa invejável canção de… R&B.

O senso de grandiosidade eternamente pautado no gênero (estética ou popularmente) também é existente na obra de HTDW. Krell já disse querer o topo da Billboard – algo que o último disco de Beyoncé mostrou ser possível. Nos termos deste compositor, a singeleza se transforma aos poucos em apoteoses soberbas, como aponta a elegíaca “Childhood Faith in Love (Everything Must Change, Everything Must Stay the Same)”.

A cada audição de What is This Heart? imaginamos Tom Krell aglomerar diferentes propósitos numa mesma canção. Como em “What You Wanted”, por exemplo. ‘Nunca escuto a mim mesmo e nunca digo uma palavra sobre isso’, reflete, com o tom de um Justin Timberlake em anos-luz de argúcia. Discorre sobre o mistério de não entender o que o outro pensa, e isso se aplica num relacionamento amoroso, profissional ou cotidiano.

“House Inside (Future is Older Than the Past)” adquire grandeza similar. A música fala do peso que colocamos no futuro, como se sua incerteza fosse motivo de fé para o agora – o que, consequentemente, pode nos gerar uma decepção com o passar dos anos. Diz que o ‘futuro é mais velho que o passado’, enquanto a música avança como aqueles segundos antes do reveillón, em que os fogos de artifício contrastam com nossos anseios para o que está por vir.