
Max Romeo (esq.) e Lee ‘Scratch’ Perry em estúdio, em 1976
Max Romeo pode não ter muito reconhecimento no Brasil, mas tem uma música dele que, se você não conhece, pelo menos já ouviu em algum sampler. A canção é “I Chase the Devil”, fruto de um trabalho muito bem podado por ninguém menos que Lee ‘Scratch’ Perry, que cedeu a sua banda The Upsetters para que o cantor gravasse o álbum War Ina Babylon. Este é o quarto disco da carreira de Max Romeo, gravado no Black Ark Studio, o reduto laboratorial de Perry.
“I Chase the Devil” está presente no sampler de “Lucifer”, uma das melhores canções de Jay-Z, que integra o The Black Album e foi produzida por Kanye West. Mas ela ficou bem mais popularizada com a esquizofrênica “Out of Space”, daquele clipe contagiante do The Prodigy, momento em que eles lançaram o impactante debut Experience.
Só que essa é apenas mais uma das muitas pérolas deste disco bem ‘underrated’ – apesar de ser considerado parte integrante da Santíssima Trindade da Black Ark, que é completada por Party Time (The Heptones) e Police and Thieves (Junior Murvin). “One Step Forward”, faixa que abre o disco, fala sobre a banalização do termo rastafári, dizendo que ‘um dia você é um dreadlock, no outro, você é um clichê’. Sua voz vigorante é potencializada pelo som cru e guitarras num estilo mais folk.
Lee ‘Scratch’ Perry, naquele momento, buscava algo mais próximo das raízes folclóricas da Jamaica e evitava a inserção de instrumentos de sopro, que haviam dominado o ska, o mento e até o reggae (vide Bob Marley, que naquele ano lançava Rastaman Vibration, recorrendo a backing vocals, teclados e guitarras elétricas em prol de um reggae mais universalizado, que entrasse em conexão com a música popular difundida em todo o mundo. War Ina Babylon tem uma proximidade maior com o dub, enquanto Bob estava se aproximando naturalmente do jungle e da música popular africana).
“Uptown Babies Don’t Cry”
“War Ina Babylon”
“Uptown Babies Don’t Cry” ovaciona a batalha diária dos sofredores que lutam pela sobrevivência, dizendo que os outros ‘não conhecem o sofrimento’ porque ‘tem as mamães, os papais e alguns brinquedos para brincar’. Na faixa-título, Max Romeo se apoia em um dub mais selvagem levado por sintetizadores e um riff contínuo.
“Norman” tem um pouco de sax, mas se destaca pelo mix de dub-jungle-reggae, chegando a algo próximo do ska. “Stealing in the Name of Jah” mostra um vocal crescente que chega com facilidade a um falseto, junto com a excelente pontuação econômica nos teclados de Winston Wright e Keith Stirling.
Quando foi lançado, War Ina Babylon tornou-se um grande sucesso pelas canções militantes que refletiam os tempos turbulentos na Jamaica. “I Chase the Devil” fincou como uma das grandes canções politizadas na época, por sua perspicácia em enfatizar o poder do homem – até mesmo ao enfrentar o satã.
Max Romeo, talvez, quisesse inspirar o povo da Jamaica a acabar com a corrupção e a extrema dependência da Jamaica de nações como Estados Unidos e Reino Unido, que interferiam nos rumos progressistas do pequeno país. Não é á toa que se eternizou como principal música de Max Romeo e um dos reggaes mais sampleados de todos os tempos.
