Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 18 de fevereiro

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Geralmente quando nos deparamos com um disco de intérprete ouvimos as canções tendo em vista três coisas: o bom gosto do repertório escolhido, se uma composição cai bem com a voz do artista ou como aquilo se encaixa no contexto de um disco.

Já conhecida na cena musical paulistana, Juçara Marçal parece não ter se preocupado com nenhuma dessas premissas em seu primeiro álbum solo (depois de trabalhos com Vésper Vocal, A Barca e Metá Metá).

Isso porque Encarnado se sustenta pelos temas ligados à morte, mas não em um sentido fúnebre. Pode ser a morte como quebra de um paradigma (“Não Tenha Ódio no Verão”) ou como proximidade para um sentido de reflexão (“Pena Mais Que Perfeita”).

Ver a morte dessa forma foi algo já sugerido por Rodrigo Campos em Bahia Fantástica (2012), e não por acaso sua colaboração como instrumentista em Encarnado ao lado de Kiko Dinucci nas guitarras encorpam essa busca pela não conformidade das coisas.

O flerte com a ‘morte’ bate tanto no sentimento de ‘compreender esse amor’ misterioso cantado em “Queimando a Língua” (de Romulo Fróes e Alice Coutinho), como em suas manifestações mais corpóreas, bem sentidas em “Ciranda do Aborto” (Kiko Dinucci), estruturada como um thriller que explora e despedaça violentamente uma ferida que abre e não pára de se expandir (‘Nunca mais se estancou/Pra você se espalhar/Laceado’). Se aqui Juçara canta como se sentisse a dor (e a rabeca de Thomas Rohrer fortalece essa simbologia), ela devolve sem dó com o petardo “Damião” (Douglas Germano): ‘Dá neles Damião/Dá sem dó nem piedade/E agradece a bondade/E o cuidado de quem te matou’.

Um repertório tão seleto quanto o de Encarnado extrai automaticamente o peso de Juçara Marçal como possível compositora. Pois o disco revela uma intérprete densamente envolvida com as canções que escolhe como uma atriz experiente ao encarnar um papel desafiador.

O grande papel de Encarnado na atual fase de Juçara Marçal é garantir um palco só seu, que todo apreciador de arte deveria prestigiar. A cortina musical realizada pelo trio Campos-Dinucci-Rohrer abrilhanta um trabalho que foi posto pela cantora como uma aventura. Do enclausuramento proporcionado pelo tema de “Pena Mais Que Perfeita” (Gui Amabis) à perdição pelas ruas na excepcional releitura de “E o Quico?” (Itamar Assumpção), Juçara se engrandece sem esforço em um ímpeto que merece ser repetido.

ERRATA:

• Os músicos Rodrigo Campos e Kiko Dinucci apenas tocam cavaquinho e guitarra, e não violão, como estava anteriormente.