
A situação estava difícil: o Reino Unido passava por uma difícil fase de recessão nos anos 70, e os imigrantes ainda eram vistos com maus olhos por alguns setores daquele país. A maioria dos membros formadores do Steel Pulse eram do Oriente e se sentiam injustiçados, obviamente.
Ronald McQueen (baixista) se reuniu com Basil Gabbidon (guitarrista) e David Hinds (vocal e guitarra) em 1975, na cidade de Birmingham, e sugeriu montar uma banda de reggae que mostrasse um pouco a situação opressora a que estavam submetidos, por meio da ideologia rastafári – tal qual The Wailers e Burning Spear.
Para divulgar o trabalho, saíram em turnê com as explosivas bandas punk. Afinal, por mais que houvesse distinção entre os gêneros musicais, o propósito era o mesmo: enfrentar o sistema por meio da música. De fato, o rock abriu a fresta para que o som do Steel Pulse fosse escutado pelo mundo inteiro, apesar de nunca ter estourado tanto quanto Bob Marley ou Peter Tosh.
O primeiro álbum só veio sair em 1978, após um namoro com a Island Records, que vinha lançando os últimos trabalhos do rei do reggae. Handsworth Revolution era uma afronta explícita ao establishment por seu grande ardor político, com letras que clamavam por uma inclusão social rastafári que pregava a igualdade entre todas as classes sociais, algo que Jah já havia proferido nas escrituras.
Steel Pulse: “Handsworth Revolution”
A mensagem do Steel Pulse parecia conter um pouco mais de urgência, com as intercalações instrumentais mais rápidas, intensas, dando mais velocidade ao reggae como gênero popular. O punk estava estourando e tinha lá seu espaço, mas o reggae inglês, o apego ao rastafarianismo, a união dos mais fracos tinha que reverberar de alguma forma. E tinha que ser daquele lugar, do centro do mundo, onde a segregação se mostrava mais presente.
Karl Pitterson já vinha amadurecendo suas habilidades de estúdio e assinou a produção com louvor. “Ku Klux Klan”, primeiro single do grupo, ganhou uma introdução dub para discorrer sobre racismo e orgulho da mãe-África, diante dos ataques de neonazistas que andavam se alastrando pelo continente europeu naquele tempo. A canção tornou-se um símbolo do reggae inglês e presença obrigatória nas apresentações viscerais do grupo.
Steel Pulse: “Macka Splaff”
“Macka Splaff” é vital e funciona como um termômetro sentimental pela dualidade do “feeling high, feeling down” proporcionado pelo sagrado ganja, como se eles se deixassem levar pelos minutos de loucura alucinógena da maconha de forma descompromissada – mas tão bem produzida, que até hoje é ovacionada pelos fãs nos shows do Steel Pulse.
“Prodigal Son” também é um dos grandes destaques do disco não só pela técnica de vozes que levam o ouvinte ao paraíso, mas pelos slaps de McQueen que dão passe livre para as experimentações futurísticas de Pitterson, que trabalhou cada instrumento com o ensejo de soar metafísico, interplanetário, algo que fosse além do estouro do reggae como fórmula musical.
Pouco tempo depois, o Steel Pulse acompanhou a turnê Kaya de Bob Marley e ganhou ampla projeção internacional, passando pelas cidades de Paris, Ibiza, Stockholm, Oslo, Amsterdã, Bruxelas e muitas outras capitais europeias. Depois de muito aprender com o rei, estava em cena um dos maiores divulgadores do reggae estruturalmente politizado. Mesmo após a morte de Bob.
