Gravadora: Warner Bros
Data de Lançamento: 2 de dezembro de 2014
Oito membros ativos, mais a presença espiritual de um falecido e apoio de outros tantos conhecidos. Se um dia tanta gente assim tinha um ideal em comum, com o tempo seria lógico que as trajetórias pessoais iriam interferir.
Juntar novamente o clã foi tarefa árdua, mas possível. Impossível é alinhar tudo dentro de uma mesma perspectiva, principalmente quando se sabe que cada um seguiu caminhos diferentes.
Duvidasse ou apostasse quem quiser, o Wu-Tang Clan passou por cima desses contratempos. Entre as tretas de U-God, a ousada trajetória musical de Ghostface Killah, a agenda lotada de RZA como produtor e as dificuldades de lidar com as muitas particularidades envolvidas, o grupo como um todo sabe que os tempos não são os mesmos.
Em A Better Tomorrow, a primeira coisa a se notar é que o Wu-Tang Clan não manteve o discurso acidamente crítico de seus discos clássicos. Todos estão crescidos e boa parte deles desfruta de carreira bem-sucedida.
Os paradigmas são outros.
Em “Felt”, Masta Killah, o eterno colaborador Cappadonna, Method Man e Ghostface sustentam a crença sintetizada no prólogo por RZA: ‘Sentimento: uma crença, que pode ser vaga, ilógica, mas principalmente, irracional’.
Citando o clássico “Son of a Preacher Man”, de Dusty Springfield, em “Preacher’s Daughter” eles atacam a fé religiosa de um pastor cuja filha (‘uma criança ilegítima’) mantém um controverso romance com os interlocutores – que, ao contrário do que faria outros rappers, são mais observadores e analíticos que reféns de desejos sexuais.
Raekwon e RZA convencem os ouvintes de terem erguido a bandeira branca em “Crushed Egos” (graças ao conflito dos dois que o Wu-Tang Clan esteve em hiato desde 8 Diagrams, de 2008). Apenas os dois cantam – a maioria dos versos, claro, de Raekwon, com letras nada diretas: ‘Cérebros conectados/Cohibas torcidos/Dizem que as sementes são estrondosas/Potes de café com anéis de cemitério, brincando com os Gs‘. Quem conclui é RZA, colocando a peça definidora do xadrez: ‘O jeitão Wu-Tang Clan aterrissa estrondosamente no seu cérebro/Isso não é genética, profecia/Talentos inadulteráveis, enquanto vocês todos falam a mesma retórica de merda‘.
“Mistaken Identity” parece ser a mais notória dos novos direcionamentos musicais do clã. O piano soturno e o apoio de backing vocals no refrão que diz ‘quero voltar pra casa, ver a mulher e os filhos‘ parece dar uma tônica familiar, mas, logo se pega confrontando com detratores que espalhavam que o grupo jamais voltaria à ativa. A mulher e os filhos são apenas credenciais que se atrelam à história do Wu-Tang, e isso acaba viciando o discurso em autorreferências – algo em evidência, principalmente, por conta da celebração dos 20 anos de Enter the 36 Chambers (1993) – completados no ano passado, inclusive.
“Ruckus in B Minor” obviamente remete a “Bring Da Ruckus”, com a acertada decisão de creditar ao falecido Ol’ Dirty Bastard o instigante interlúdio: ‘Vou te dizer uma vez só, e você vai adorar‘. No entanto, o que se sucede é uma marretada atrás da outra. Todos colaboram, e o continuum é tão fluido que dá para elencá-la como uma das grandes faixas do clã em sua história.
Produzida por 4th Disciple, a bombástica “Necklace” de alguma forma dialoga com o clássico “Protect Ya Neck”, enquanto a seguinte “Ron O’ Neal” cita “C.R.E.A.M.”.
Não é preciso criptografar as complexas rimas ou se esforçar no Google Translate para captar o clima positivista de A Better Tomorrow. A faixa-título, por exemplo, é versada sobre sampler de “Wake Up Everybody”, de Harold Melvin & the Blue Notes. Diferente de qualquer outra investida do Wu, “Miracle” é melancólica e esperançosa, parece tema de musical. “Wu-Tang Reunion” é o champagne a celebrar; não esconde o clima festivo (ainda que pareça festa de criança, por conta dos murmúrios) e usa sampler da bela “Family Reunion”, do grupo de R&B dos anos 1950 The O’Jays. Está tudo bem, e não há razão para esconder. O reflexo, em disco, também é positivo.
