Gravadora: Blank
Data de Lançamento: Janeiro de 1978

Em 1978, o punk já não era mais novidade. Alguns já falavam em pós-punk, uma espécie de ressaca do acesso baderneiro após Never Mind the Bollocks, Rocket to Russia e outros clássicos que já cansamos de rodar nos players de streaming. 1977 era ano, também, de no-wave, de First Album, do Suicide, e de outras pérolas que se firmaram na contracultura.

Mas, pra que lado ia o Pere Ubu? Se existia mesmo essa contracultura, certamente o disco de estreia, The Modern Dance, beirava seu lado mais extremo. Começa pelo nome da banda: foi inspirado na obra Ubu Roi, que Alfred Jarry escreveu em 1896, contando a história de um burguês inescrupuloso que mata centenas de pessoas em busca de poder e dinheiro.

Autodenominada ‘avant-garage’, a banda era formada pelo maníaco vocalista David Thomas, os guitarristas Peter Laughner e Tom Herman, o baixista e pianista Tony Maimone, o baterista Scott Krauss e Allen Ravenstine nos sintetizadores, saxofones, fitas e produção.

A sonoridade ia da maluquice de Captain Beefheart aos experimentos de free-jazz, antecedendo o movimento no-wave que tomaria Nova York a partir do ano seguinte. Direto de Cleveland, a banda chegou a ser entremeada ao movimento punk, mas era muito mais niilista que qualquer uma delas.

Maluca ou não, uma coisa surpreende neste line-up do Pere Ubu: a qualidade e a integração dos músicos. Por isso, eram apelidados de “Crosby, Stills and Nash do underground de Cleveland”

A faixa inicial, “Nonalignment Pact”, estabelece um contrato com uma garota, que bem poderia ser o ouvinte: ‘Assine!/Pacto de não-alinhamento/À noite posso ver as estrelas queimando/Posso ver o mundo em chamas/E tudo isso por causa de você’. Isso levado a riffs de guitarra sobrepostos por feedback de guitarras, tornando as coisas tortas logo de cara.

A faixa-título é calminha, perene, parece extraída de um disco do Devo (que, naquele ano, lançava também sua obra-prima). “Laughing” é beefheartiana até o caroço, como se o Pere Ubu estivesse hibernando ao som de Trout Mask Replica (1969), até despertar como uma banda punk enérgica, soltando fogo pra todo lado – e voltando a hibernar, como parte de um ciclo que se interrompe em intervalos mais curtos. É uma das mais doidas de The Modern Dance.

O Pere Ubu também mostrou que é capaz de criar música pop – pois este é o caso de “Street Waves”, um dos maiores hinos da banda. Ela fixa riffs e solos excepcionais, mostrando uma simbiose que deixaria músicos da cena alternativa embasbacados anos depois com a não-simbiose, a não-obliteração, o não-diálogo de Laughner e Thomas. O eixo, entretanto, é o baixo de Maimone, genioso e arrojado.

Ainda que ‘pop’ tenha sido mencionado, é importante deixar algo bem claro: a voz de David Thomas é praticamente ininteligível. Por isso, não há muita diferença em buscar entendimento nos scats malucos de “Chinese Radiation” ou nos acessos esquizofrênicos de “Life Stinks”, em que a agilidade das guitarras e dos synths se confundem com o que o vocalista tenta dizer (ele urra: ‘Gosto de Kinks/Preciso de drinques/Não posso pensar‘).

Maluca ou não, uma coisa surpreende neste line-up do Pere Ubu: a qualidade e a integração dos músicos. Apelidados de “Crosby, Stills and Nash do underground de Cleveland”, formataram um avant-garde malucamente interestelar, encapsulando a anarquia das cordas de guitarra do punk e o desapego às estruturas harmônicas. Isso era fácil de explicar: alguns integrantes já foram ativos em outras bandas: Thomas e Ravenstine foram membros do Rocket From the Tombs, enquanto, tardiamente, críticos diriam que Maimone e Krauss formavam uma das bases rítmicas mais instigantes do rock, em todos os tempos (um crítico da Rolling Stone chegou a dizer que The Modern Dance seria o ápice do rock, que seguiria em contínua derrocada).

Em The Modern Dance a capacidade musical é artifício de um som urgentemente insano. “Sentimental Journey”, por exemplo, é mais intergalática que qualquer tentativa sonora do Pink Floyd (mesmo em sua fase com Syd Barrett). A transição temporal de “Real World” imagina um pêndulo mais cruel que o mero continuar de tique-taques. Num momento, a realidade – noutro, o imaginário.

De acordo com David Thomas, isso faz parte de ser uma banda pop. Disse ele, em entrevista ao The Guardian:

“Só não éramos uma banda pop muito boa! Este é o problema fundamental. Éramos muito autodestrutivos. Chegamos muito perto de ser pop algumas vezes e falhamos, porque não nos incomodava ir a fundo nessa coisa toda. Se eu tivesse grande sucesso, você não tem ideia de quão perigoso eu poderia ser”.

O perigo não era indireto. Também não era uma piada, como repete em “Humor Me”, pop esfuziante que encerra o disco. O Pere Ubu tornou-se uma banda de culto porque não atacava o establishment indo contra ele. Nem mesmo os mais ferrenhos críticos ao pop tinham verdadeiro apego com The Modern Dance. Aos contraventores, esta genial banda de Cleveland também confundiu – e inspirou bandas também meteóricas, como Butthole Surfers, Pixies e uma banda ou outra de Mike Patton (incluindo uma tal de Faith No More).