Gravadora: Norgran/Verve
Data de Lançamento: Entre 1954 e 55, em 3 LPs
Boa parte do desenvolvimento do sax-tenor pertence a Lester Young. Pertence mesmo, de forma imperativa. Apelidado de ‘Pres’ – que significava ‘presidente do jazz’ – ele deu início a uma revolução no instrumento a partir do momento em que entrou para a primeira grande banda de Count Basie.
Em vez de seguir uma linha ágil, típica da era swing, ‘Pres’ instituiu a melodia de forma imponente – em contraponto a Coleman Hawkins, cujas notas rápidas ditavam o ritmo.
Se o jazz muito devia ao blues, o tenor de Young era um de seus principais mantenedores estéticos.
Lester Young viveu o auge artístico nos anos 1930 e 40, firmando importante parceria com Bille Holiday no acompanhamento de suas baladas mais significativas, como “A Sailboat in The Moonlight” e “Fine and Mellow”. Foi ‘Pres’ quem deu a Billie o apelido de ‘Lady Day’, além de inúmeros jargões do jazz que ficaram eternos: dizia ‘big eyes’ e ‘cool’ para as coisas que gostava e ‘nice biscuits’ para mulheres belas de salto alto.
A grande importância de The President Plays With the Oscar Peterson Trio é mostrar que os dois protagonistas viviam momentos brilhantes em sua carreira, ainda que antagônicos
No meio dos anos 1940, ele foi convocado para o Exército, e as coisas mudaram. Chegaram a dizer que seu estilo mudaria para sempre, mas o fato é que Young pendeu para performances mais isoladas, ainda que dependesse de trabalhos free-lancer. Há um motivo para isso: durante o serviço militar, ele se recusava a cortar o cabelo e pegar em uma arma. “Não quero matar ninguém. Só quero tocar e fazer os outros felizes”, disse.
De qualquer forma, este período foi traumático. Ele passou a beber diariamente, mas por mais que sua técnica fosse afetada, Lester Young ainda era ‘Pres’.
Foi nessa fase da vida que ele gravou com o pianista Oscar Peterson, ainda um jovem ‘talentoso’ muito comparado a Art Tatum e Teddy Wilson em seu estilo lisonjeiro.
A grande importância de The President Plays With the Oscar Peterson Trio é mostrar que os dois protagonistas viviam momentos brilhantes em sua carreira, ainda que antagônicos. Gravado no final de 1952, o álbum foi lançado em três LPs ao longo de 1954 e 55.
Nele, Lester Young eternizou versões impagáveis de “Ad Lib Blues” e “Tea For Two”, enquanto Peterson revelou um quarteto (e não trio, como diz erroneamente o encarte) instigante, com destaque para o guitarrista Barney Kessel, herdeiro ‘direto’ do genial Charlie Christian, gênio do swing que morreu precocemente, em 1942.
Kessel notabilizou-se por sua diversificação na progressão dos acordes, formando um complemento importante para a fluência musical do grupo. Em “Just You, Just Me”, o guitarrista estabelece uma amarra com as linhas de piano repletas de um swing único. Junto a Peterson, é como se estivéssemos diante de um supermúsico com quatro braços que toca os dois instrumentos ao mesmo tempo, de tão unificado que é o diálogo.
A densidade do estilo de Lester Young não parte de um esforço do ouvinte; é naturalmente branda de uma personalidade indefectível
Kessel também introduz temas com admirável destreza: em “(Back Home Again in) Indiana”, joga acordes abertos para que Young e Peterson delineiem a passagem. O sax-tenor de ‘Pres’, claro, é predominante. Suas notas verticais se interrompem, como se fosse um jorro de ideias vagas. A fluência é encontrada no meio do caminho. Ainda que este seja um tema de James Hanlay e Ballard McDonald, Lester apoia-se para testemunhar um sentimento de pertencer. É como se ele fosse recobrando os termos, até nos entregar um real ‘depoimento musical’, com a personalidade estrita somente a ele. Sua performance é tão cara, que mesmo quando Peterson assume, a partir dos 4 minutos, a ausência do saxofonista é plenamente sentida.
O baixista Ray Brown e o baterista J.C. Heard raramente solam no disco, e a justificativa é plausível: eles estão justapostos para que Peterson, Kessel e, principalmente, Young coordenem as melodias. Portanto, quando a guitarra, o sax-tenor ou o piano estão à frente, exibem características distintas.
O entrelace de Peterson e Kessel é mais evidente, enquanto a solidão de Lester Young reforça a instituição melódica que o tornou um dos músicos mais influentes do jazz no século XX.
A banda não precisa ‘parar para assimilar’ a entrada de Lester: takes como “On the Sunny Side of the Street” e “(I’m) Confessin’ (That I Love You)” são provas de que bastasse a entrada de uma nota para que a densidade do saxofone adornasse a canção de beleza. “Star Dust” é um despejo de emoções em pouquíssimas notas. “There Will Never Be Another You” nos dá saudade de alguém que faz muita falta, enquanto a maestria de “These Foolish Things” reside na maturidade melancólica que se enxerga momentos vazios.
A densidade do estilo de Lester Young não parte de um esforço do ouvinte; é naturalmente branda de uma personalidade indefectível, crucial para que o saxofone se tornasse protagonista no jazz desde então. De Charlie Parker a Joe Lovano, de Sonny Rollins a Dexter Gordon, todos os ‘sucessores’ da linha de Young fizeram com que o mandato de Pres se estendesse à eternidade.
