01 Intro02 If I Die Tonight03 Me Against the World04 So Many Tears05 Temptations06 Young Niggaz07 Heavy in the Game08 Lord Knows09 Dear Mama10 It Ain’t Easy11 Can U Get Away12 Old School13 Fuck the World14 Death Around the Corner

15 Outlaw

Gravadora: Interscope/Out Da Gutta/Amaru
Data de Lançamento: 14 de março de 1995

A obra de Tupac Shakur – ou 2Pac – deve ganhar notoriedade ao longo deste ano por conta de dois fatores complementares: por causa da relação que Kendrick Lamar constituiu com o rapper de Oakland no recém-lançado To Pimp a Butterfly; e por conta dos 20 anos de um de seus discos mais icônicos: Me Against The World.

O terceiro álbum de 2Pac tem como pano de fundo as acusações de estupro em 1993 (ele alegou que a garota, que trabalhava numa boate, foi ao hotel com ele de forma espontânea), a condenação que sofreu por isso e a tentativa de assassinato por quatro tiros após o julgamento – história famosa em que o rapper acusou a trupe de Puff Daddy, Notorious B.I.G. e a própria garota da boate de estarem envolvidos.

Numa época em que os termos rap e gangsta caminhavam lado a lado, esperaria-se que Tupac retornasse com um álbum tão agressivo quanto 2Pacalypse Now (1991).

Veio a surpresa: as composições eram notadamente pessoais e falavam de ressentimentos, arrependimentos, lágrimas, a dura experiência de uma vida conturbada.

Saiu o peso das graves para entrar os grooves. Tanto que Me Against The World bem que poderia ser considerado um disco de R&B.

Em “So Many Tears”, relembra dos parceiros que perdeu e das merdas que fez na vida. “Young Niggaz” fala do desperdício social de termos tantas pessoas boas, que não tiveram oportunidade de crescer na vida por morar nos subúrbios. E “Dear Mama”… Bem, é aquela típica homenagem de um músico emocionado que tenta estabelecer a reconciliação com a mãe depois de tantos erros (lembrando que sua mãe, Afeni Shakur, cuidou de sua carreira e foi uma das responsáveis por impulsionar as vendas de seus discos; ela era membro dos Panteras Negras e filha de Assata Shakur, que ainda hoje faz parte da lista da CIA como uma das mais procuradas, acusada de terrorismo).

Se todos estavam contra 2Pac antes de 1995, passaram a odiá-lo ainda mais depois de Me Against The World: preso, ele quebrou recordes ao chegar ao 1º lugar das paradas da Billboard

Especialmente nos anos 1990 colocar-se à prova dentro do rap era uma etapa importante. Era preciso alinhar o discurso social e a posição ideológica, para que tanto a mensagem das composições como a própria carreira de um rapper obtivesse credibilidade.

Entre 1993 e 94, enquanto gravava Me Against The World, transitando por cerca de 10 estúdios, 2Pac era muito jovem: tinha entre 22 e 23 anos de idade. Claro que sua precoce maturidade exibida especialmente neste registro, em canções como “Heavy in the Game” e “It Ain’t Easy”, não necessariamente andavam de mãos dadas com a forma de lidar com as encrencas em que estava envolvido. Por mais que cantasse sobre a violência, 2Pac não queria ser refém dela. Antes de ser uma má influência (algo que ele não quer ser, como ouvimos em “Can U Get Away”), Me Against The World veio com a premissa de aprofundar-se em seu próprio íntimo.

Para chegar a isso, nada de falar de carrões ou das bitches num teor que beira a misoginia. “Temptations” é a brecha sentimental que selaria esse novo momento para 2Pac: ‘Se sou um amor errado, me diga/Porque eu fui preso e a vida é um inferno, não vê?/Nunca pensei que chegaria o dia em que fosse me acalmar’.

Mas, se é a calma, o momento brando que faz 2Pac substituir o grave pelo groove, as quatro faixas finais mostram que sua personalidade não foi nada afetada pelos acontecimentos. ‘O que posso dizer? Não estaria aqui hoje se não fosse o caminho pavimentado pela velha escola‘, diz o sampler de Grand Puba em “Old School”, onde o vemos cantar como nos discos anteriores.

Em “Fuck the World”, então, ele manda  mundo às favas (‘Disse ao juiz que sou perigoso’) numa base assassin-funk, cortesia da produção de Shock G.

Na dobradinha final “Death Around the Corner” e “Outlaw”, estamos diante de situações que fogem do controle de 2Pac. Quanto a isso, ele não fica triste. Pelo contrário, retoma seu modo afiado de discursar com a revolta de quem não vai se inquietar jamais com a guerra diária travada entre os próprios negros, a despeito do descaso da sociedade norte-americana.

Se todos estavam contra 2Pac antes de 1995, passaram a odiá-lo ainda mais depois de Me Against The World: preso, quebrou recordes ao chegar ao 1º lugar das paradas da Billboard. Daí pra frente, os demais discos que lançou enquanto vivo – All Eyez On Me e The Don Killuminati: The 7 Day Theory, ambos de 1996, mesmo ano em que foi assassinado – também chegariam ao topo, tornando-o um dos rappers que mais vendeu discos na história.