Todos estavam estupefatos: de onde vinha aquele vigor e toda aquela versatilidade vocal de um grupo feminino composto por 5 integrantes que, tirando o violino, só tocavam com instrumentos de cozinha? Apesar da estranheza de boa parte do público que compareceu ao primeiro dia do evento PERC PAN – Panorama Percussivo Mundial, realizado no Auditório Ibirapuera nos dias 11 e 12 de novembro, em São Paulo, em pouco tempo os espectadores caíram nas graças do B’Net Marrakech, um grupo do Marrocos que explora inúmeras tonalidades vocais ao mostrar ao mundo um pouco mais da cultura árabe.

No Auditório Ibirapuera, vislumbramos um músico que denota um potencial irrefutável ao fazer valer os elogios de gente como Caetano Veloso e Chico Buarque

De início, a interação foi um pouco difícil, já que as integrantes não falavam inglês, tampouco português. Com o tempo, elas estabeleceram uma comunicação meio tribal ao pedir que o público imitasse gritos ora estridentes ora mais simples. Naturalmente, entrar no clima do grupo ficou algo divertido, pois estávamos liberando aos poucos nossa testosterona que, alguns minutos depois, iria eclodir múltiplas vezes com a apresentação visceral de Criolo.

Junto com o rapper paulistano, estavam no palco o trio parada-dura de percussão da Nação Zumbi, além do baterista da banda pernambucana, Pupillo, segurando os batuques e entrando na onda da jam africana, completada pelo sax de Thiago França, o baixo de Marcelo Cabral e a guitarra de Guilherme Held.

De início, entrou a selvagem “Sucrilhos”, que fala que ‘uns preferem morrer ao ver o preto vencer’. Mal começou a apresentação, e boa parte do público ficou em frente ao palco, de pé, pulando e cantando toda a letra: ‘morango só é bom com a preta de lado’. DJ Dan Dan chegou agitando tudo e cobrou da galera o refrão. Em seguida, entrou o hit “Subirusdoistiozin”, com Criolo entregando seu mantra espiritual de forma sincera – devoção que estava bem contextualizada, já que o cantor estava todo de branco e gesticulava tal qual um pai de santo em um ritual de candomblé.

Criolo cantou todas as músicas de seu excelente disco Nó na Orelha, apesar de alguns pedidos excêntricos de uma galera que não poupava limites ao pedir clássicos como “Cerol” e “No Sapatinho”, de discos anteriores. (Mesmo eles foram atendidos, no bis.)

No Auditório Ibirapuera, além de vislumbrarmos um músico que denota um potencial irrefutável ao fazer valer os elogios de gente como Caetano Veloso e Chico Buarque, também vimos um artista sincero, que tem preocupação com os rumos de sua música e com o cenário do rap. Se emocionou ao ver a platéia ensandecida com seus hits precoces repletos de musicalidade e não poupou elogios ao apresentar os músicos de sua banda, também responsáveis pelos ótimos resultados colhidos com o disco Nó Na Orelha.

“Quando o Criolo chegou em mim e disse que queria gravar um novo disco, jamais achamos que teria toda essa energia que vocês nos passam”, confessou Ganjaman. “Eu, Criolo e Marcelo Cabral [um dos produtores do disco] jamais pensamos que daria nisso”, gesticulava o DJ/músico/produtor, orgulhoso por ter contribuído com um dos melhores discos da música brasileira em anos.

Para encerrar a linda apresentação de cerca de 1h30, Criolo evocou os versos de sua versão de “Cálice”: ‘há preconceito com o nordestino/há preconceito com o homem negro/há preconceito com o analfabeto/mas não há preconceito se um dos três for rico’.

E teve a deixa que reflete muito bem os paradigmas rompidos com sua música: ‘me chamo Criolo o meu berço é o rap/mas não existe fronteiras pra minha poesia’. Criolo afastou qualquer coisa ruim que pudesse pairar por ali.

Abaixo, a versão de Criolo de “Cálice”: