Gravadora: Cómeme
Data de Lançamento: 3 de novembro de 2015
A leste de Medellín, a pequena cidade de Rionegro guarda o importante registro histórico de salvaguardar a Constituição que trouxe independência à Colômbia, em 1863. Com mais de 100 mil habitantes, a cidade tem se tornado um local mais que aprazível para noitadas com bebidas e boa música.
Esse pano de fundo histórico não deixa de ser complementar ao contexto em que o chileno Mathias Aguayo, dono do selo Cómeme, responsável por um catálogo que tem expandido os experimentos com música latina ao redor do mundo, se insere para empreender algo que pode ser precoce demais para ser chamado de ‘revolucionário’, mas que não se afasta do que consideramos ‘inovador’. Porque foi lá, naquela pequena cidade, que ele teve uma ideia ‘inocente’: chamou os colombianos Gregorio “Gladkazuka” Gómez (da banda Panorama) e Sebastián “Sano” Hoyos para fazer um som com um MPC, regado a doses de aguardente e bastante ‘fumaça’.
Três anos foram necessários para que o disco fosse produzido, reeditado, masterizado e concluído em Berlim (Alemanha)
Foi por iniciativa de Sano que o trio decidiu fazer uma espécie de ‘mistura’ entre salsa e techno, com elementos da cumbia, house e da percussão da música africana. Essas ‘sessões’ tiveram início em janeiro de 2013, em casas próximas à Cordilheira dos Andes, coletando o vivaz espírito popular de ritmos e danças ligadas à tradição colombiana.
O resultado ficou com o nome de RIONEGRO mesmo: “Juntaram-se a nós um pianista, alguns cantores, um percussionista, e gravamos dia e noite”, descreve o texto de divulgação do álbum, homônimo.
O álbum RIONEGRO possui 11 faixas tão envolventes, quanto esteticamente digitalizadas. O som do MPC pode ser destaque, mas ele não soa mais que um aparato para que o trio cruze pontes que conectem cumbia, salsa e latin-jazz ao acid-house e ao techno.
Como bem mostram as ilustrações do clipe de “Amazonas”, dirigido por Naty Lara e Ber Arce, essa integração é bastante cósmica, com possibilidade de flertar com outros andamentos musicais, como funk africano, dub e merengue. (Esta canção, inclusive, é uma versão de “La Danza de Los Mirlos”, da banda peruana Los Mirlos, que fez sucesso nos anos 1970.)
Algumas canções, como “El Byron” e “Mojada” têm estruturas rítmicas que ligam a algo futurista. Em contrapartida, é a um passado festivo e tempestivo que “Carruseles” e “Lugareña” pertencem. Dá pra vislumbrar uma espécie de feira popular, com pessoas interagindo em trejeitos que apenas os próprios colombianos entenderiam.
Há momentos em que a eletrônica doma as rédeas, como em “La Descarga”, e o resultado surpreende por sua conexão musical com o andamento de ritmos ‘tradicionais’. “Negro Empelota” é ainda mais sintomática nessa direção, mostrando proximidade com o samba e, ao mesmo tempo, com a psicodelia.
Três anos foram necessários para que o disco fosse produzido, reeditado, masterizado e concluído em Berlim (Alemanha). A concepção musical das gravações (e andanças) duraram, no entanto, pouco mais de um mês.
Chamar RIONEGRO de ‘fusão de estilos’, ou algo do tipo, talvez não seja a melhor forma de contextualizar onde o trio realmente queria chegar. Eles evitam se aproximar a esse tipo de interpretação, como deixa bem claro no release:
“Neste projeto, um espírito musical foi seguido, iniciado pela inspiração de Sano em tocar ritmos de salsa, descarga, boogaloo, merengue e mais, usando os aparatos de hoje. Juntos, estamos cientes de mirar não em fazer uma fusão de estilos, mas entregar um autêntico amor à música, e algo com que você possa dançar nos mesmos passos que os grandes clássicos da salsa”.
Ouça RIONEGRO na íntegra no player a seguir:
Outros lançamentos relevantes:
• Siléste: Alien/Iansã (Independente)
• Pio Lobato: Pio Lobato (Independente)
• Lionel Loueke: Gaïa (Blue Note)
• Blu / Madlib / MED: Bad Neighbor (Bang Ya Head)
• J Dilla: Dillatronic (Vintage Vibez)
• Rabit: Communion (Tri Angle)
• Laurel Halo: In Situ (Honest Jon’s)
