A placa sentenciava: ‘A música que as gravadoras querem que você não escute’.

Com budget de 1.000 libras esterlinas, aquele 12 de março de 1978 foi mais que um manifesto de músicos indignados pelo modelo viciado da indústria cultural. O Festival Rock in Opposition (R.I.O.) uniu bandas de diferentes países europeus, com o propósito de registrar que as majors não representavam (tampouco financiavam) aquela prolífica cena musical.

A bordo do solavanco puxado pela banda britânica de prog-rock/avant-garde Henry Cow (primeira banda do genial guitarrista Fred Frith), os grupos Stormy Six (Itália), Samla Mammas Manna (Suécia) e Etron Fou Leloublan (França) integraram o line-up do show, realizado no British Arts Council, em Londres.

O guitarrista/tecladista Roger Trigaux também era um dos adeptos desse seleto grupo de músicos, todos excelentes instrumentistas. Como integrante da belga Univers Zero, trouxeram a simbiose da música de câmara para a construção de seus temas progressivos.

Mesmo sem a pretensão de tornar-se um movimento, o R.I.O. passou de mero festival a subgênero musical e encantou o manager Giorgio Gomelsky, que trabalhou com os Yardbirds e Rolling Stones. Foi ele quem percebeu o denominador comum mais próximo de todas aquelas bandas: a francesa Magma que, se por um lado não integrava o movimento, por outra fazia ecoar, mesmo sem querer, os achados musicais de clássicos como Mëkanïk Dëstruktïẁ Kömmandöh (1973) e Köhntarkösz (1974) em cada faixa daquelas cinco admiráveis bandas.

Assim, o movimento teve continuidade. E, claro, foi adquirindo novas perspectivas musicais – pois era a música, de fato, o grande motor de seu alcance.

Nesse meandro, nasceu o Present. A banda representava um novo olhar de Roger Trigaux ao que considerava música experimental. A influência do modus operandi da música de câmara propagada por Brahms, Stravinsky e Babbit unia-se ao complexo rock de grupos britânicos como Genesis e Lounge Lizards.

Após muito aprender e descobrir com o Univers Zero, Trigaux decidiu dar novo rumo às suas experimentações artísticas. Junto aos membros da antiga banda (o baterista Daniel Denis e o baixista Christian Genet), continuou sustentando o movimento R.I.O. com o Present, quebrando tanto as convenções do rock, como as convenções do que se entendia de música de câmara. A isso, unia-se a formação clássica do pianista Alain Rochette, um dos fundadores originais.

Nessa esteira, em 1980 lançou o acachapante disco de estreia, Triskaidekaphobie, que inicia com o mais conhecido tema da banda até os dias de hoje: “Promenade Au Fond ’D’un Canal”, com suas modulações rítmicas entranhadas no jazz fusion.

Em fevereiro de 2014, a gravadora Cuneiform lançou uma versão remasterizada e com versões bônus dos dois primeiros discos do Present: o mencionado Triskaidekaphobie e o segundo álbum, Le Poison Qui Rend Fou (1985).

O expressivo desenho da capa de Triskaidekaphobie exibe um monstro endiabrado preso por correntes, como se estivesse contemplando a presa. Um olhar mais atento revela que se trata de um homem de aspecto cavernoso, como se estivesse recolhido por estar com frio. Parece um monstro porque os lábios estão cortados, revelando parte de sua carga dentária. O semblante é raivoso, claro, porque está aprisionado.

Não que o disco tenha essa mesma premissa visceral. As ligeiras notas de teclados de “Quatre-Vingt Douze” criam uma sensação agonizante, que talvez dê pra entender o motivo do rapaz daquela capa estar tão atônito. De tanta impulsão, tanta testosterona, não demora para que a música encontre novamente a tranquilidade. A tranquilidade, claro, não é duradoura: através de diferentes justaposições musicais, muito marcadas por teclados e bateria, “Quatre…” modula tensão e temperança com rápidas alternâncias. Não fica preso à calma, assim como não dá muito espaço às explosões instrumentais.

Pelo fato do Presence estar interligado ao Univers Zero, a Cuneiform incluiu neste lançamento uma versão rearranjada de “Dense” e “Vous Le Saurez En Temps Voulu”, da banda anterior de Trigaux, ambas apresentadas ao vivo num show em Bruxelas, em 1981.

Mais desprendido de justaposições, o segundo álbum do Presence é mais fluido e focado em suas variações melódicas e rítmicas.

A banda ainda estava com a mesma formação quando lançou Le Poison Qui Rend Fou, mas, em 1985, já não existia mais.

Houve embargo sobre como o álbum seria lançado. Até que a Cuneiform o incluísse em seu catálogo, pouco tempo depois de ter sido criada (em 1984), demorou dois anos para que o disco saísse de fato. Assim como o anterior, Le Poison… obteve morna recepção de crítica e pouca aceitação de público.

As faixas do álbum original não têm nome; são homônimas, apenas separadas por partes. A primeira delas é um arroubo intenso de profusões sônicas. Aí, não se pensa mais em emoções. As direções parecem delimitadas pela técnica; afinal, os músicos já tocavam juntos há um tempo considerável na construção de uma unidade sonora própria.

É mais difícil descrever como Le Poison… se encaixa na obra do Present, pois, apesar da veia roqueira pulsar mais forte por conta do maior protagonismo das guitarras, as proximidades com o progressivo já não são tão aparentes. Do mesmo modo que pouco encontramos de jazz, a não ser suas características mais ácidas.

Então, entende-se melhor a denominação de chamber rock, que passou a ser utilizada para descrever a sonoridade das bandas do R.I.O. O Present foi uma das mais proeminentes nesse sentido, como afirma sem modéstia o release da Cuneiform:

“Com o tempo, o movimento R.I.O. assumiu significado musical, tornando sinônimo de chamber rock (um gênero híbrido combinando a sonoridade elétrica do rock com instrumentos acústicos da música clássica), de onde Present é considerado um dos mestres. (…) Present reinterpretou com eficácia a anterior estética do Univers Zero de chamber rock – de onde Trigaux havia sido instrumentalmente definidor – a uma pequena e intensa formação elétrica, resultado numa barulhenta e decididamente visceral ponte roqueira”.

Por Le Poison… ser menor em duração que o antecessor, a gravadora incumbiu de encaixar mais material inédito extra neste registro. O álbum possui versões ao vivo das emblemáticas “Quatre-Vingt Douze” e “Promenade…”, além da inquietante “Ersatz”, cuja complexidade também pode ser percebida em um vídeo, que acompanha o box, extraído de uma fita VHS da época. A qualidade da imagem é média; já da música, hmm… qualidade inquestionável de execução e maestria.(Esta versão de Le Poison… também traz mais dois vídeos com qualidade de VHS, com trechos de “Quatre-Vingt Douze”.)

Triskaidekaphobie e Le Poison… são os únicos registros do Present com a banda original. Depois de 1983, Trigaux retornaria com a banda reformulada nos anos 1990, incluindo seu filho Réginald Trigaux como segundo guitarrista.

Em 2007, Roger Trigaux obteve o aval do baterista do Henry Cow, Chris Cutler, para usar o nome Rock in Opposition em uma nova edição do festival. O relativo sucesso garantiu edições anuais do espetáculo a partir de então.

Trigaux apresentou um novo formato para o Present, de variante mais clássica (e com gigantes pianos) especialmente para os shows e, em 2011, integrou a elite musical da Bélgica junto aos músicos da antiga Univers Zero e da recente Aranis para o supergrupo de 17 membros Once Upon a Time in Belgium.

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Obs: para entender melhor a importância do movimento R.I.O., assista ao documentário Romantic Warriors II: A Progressive Music Saga About Rock in Opposition (2012), dirigido por Adele SchmidtJosé Zegarra Holder.