Considerada uma das duplas mais prolíficas no meio musical, Sly Dunbar e Robbie Shakespeare já foram responsáveis por trabalhar em mais de 200.000 faixas. Do disco Infidels, de Bob Dylan, a remixes de Madonna, passando pela maioria das produções de dub, gênero que melhor os caracteriza, Sly & Robbie conseguem dialogar na bateria e no baixo (respectivamente) como se fossem gêmeos que tocam desde o útero.
Blackwood Dub impressiona pelo seu teor orgânico. Fazia oito anos que a dupla não lançava material inédito
Na Jamaica, eles continuam dando duro: ultimamente, ajudaram o cantor de reggae Bitty McLean a produzir o disco Movin’ Out. Pouco tempo depois, produziram quatro faixas do EP The Introduction-Dubstyle, de Cherine Anderson (com ela, inclusive, chegaram a fazer uma nova versão de “Piece of Me”, de Britney Spears).
De fato, os músicos estão em atividade constante desde os anos 1960, quando caíram nas graças nas experimentações de King Tubby e tornaram-se músicos de estúdio de Lee ‘Scratch’ Perry. Eles também tocaram na maioria dos discos de Peter Tosh (incluindo o aclamadíssimo Equal Rights) e fizeram inúmeras versões instrumentais de clássicos de Bob Marley & The Wailers – cujo grande destaque é a instrumental de “Crazy Baldhead”. (Tem uma coletânea poderosa dessa dupla lançada em 2004 chamada Riddim: The Best Of Sly & Robbie In Dub 1978-1985, uma compilação de 40 faixas com várias pedradas musicais.)
E agora, depois de oito anos sem lançar um material inédito, Sly & Robbie surgem com um surpreendente disco de dub de raiz, com algumas experimentações com cordas funky e pequenos aparatos que formam eco.
No entanto, o que mais impressiona em Blackwood Dub é o seu teor orgânico.
A canção que abre o disco, “Dirty Flirty”, é pontuada por riffs e percussões contínuos, mas vai permitindo a entrada de tudo quanto é sonoridade, como se fosse uma garagem de armazenamento musical – não importa de onde a música venha.
“Frenchman Code” traz uma espécie de barulheiras com latas em meio a barulhos de uma fauna irrequieta que traça a inevitável proximidade entre periferia e selva.
“Burru Saturday” é tão inovadora que poderia muito bem ser aproveitada por um grupo improvavelmente criativo como o Animal Collective, graças à sonoridade aquática, suavizada e quase tântrica que, por outro lado, encaixaria facilmente vocais da diva neosoul Erykah Badu.
Produzido por Alberto ‘Burur’ Blackwood (que justifica o nome do álbum) e mixado no estúdio Harry J, na Jamaica, Blackwood Dub é muito mais que um retorno triunfal de Sly & Robbie. Suas 10 faixas representam um direcionamento musical criativo para o cotidiano de quem se depara com muita turbulência de casa ao trampo, da faculdade ao boteco, do ponto de ônibus à esquina.
Abaixo, ouça um preview de todas as faixas de Blackwood Dub:
