É complicado falar de singularidade das novas cantoras brasileiras. A maioria delas se apoia em ritmos tropicalistas, com letras brandas e composições sentimentais.

Ava Rocha não foge disso, mas oferece elementos mais interessantes em seu segundo álbum, Ava Patrya Yndia Yracema. Ela, que é filha do consagrado cineasta Glauber Rocha, não renega a influência arrebatadora de Gal Costa; nesse sentido, é sua herdeira direta, principalmente por contar com o aval de alguns músicos que, indiretamente, vêm da mesma molécula que formou o embrião criativo da canção popular nos anos 1970. Entre os colaboradores do álbum, figuram Domênico Lancellotti, Jonas Sá, Bruno di Lullo e Marcello Calado.

O principal colaborador, entretanto, destoa de toda a escola neotropicalista: trata-se de Negro Léo, seu marido e dono do melhor disco nacional de 2014. (Negro Léo, aliás, segue uma corrente antitropicalista por assimilar dodecafonia, no-wave e punk num diferente contexto brasileiro.)

Ava Patrya Yndia Yracema trabalha o meio-termo entre a técnica e a extravagância, ultrapassando as discussões do preterido ‘pós-tropicalismo’. Mesmo com nomes tão fortes da cena musical do Rio, ela também compõe: é dela a faixa de abertura, “Boca do Céu”, com interessante joguete de palavras entre saliva e chuva; “Transeunte Coração” tem uma levadinha reggae que dialoga com Anelis Assumpção; além disso, também são dela as canções “Beijo no Asfalto”, “Uma” e “Tão Tão”.

A aparentemente tranquila “Mar ao Fundo”, com linhas de um pocket piano de Ricardo Dias Gomes (da banda Cê, de Caetano Veloso), sela sua parceria na escrita com Negro Léo, que assobia ao fundo.

A assessora de imprensa Patricia Palumbo fez interessante descrição do disco e dos músicos que nele participam:

“Nós sabemos que a música feita hoje no Brasil é diversa e rica assim por que esses músicos existem, esse estofo, essa retaguarda que dá todo o poder ao discurso poético da canção. E Ava está muito bem cercada, sendo ela mesma – já – uma artista de destaque nesse contexto. O disco chega com a marca de uma geração cheia de talento e de possibilidades. Numa hora em que se pode fazer tudo e que a relevância é discutível, esse é um trabalho pra ficar. As composições de Ava Rocha são tão especiais quanto sua voz. Chuva saliva caindo da língua, marinheiros que tombam no forte, boca do inferno, pau de angola…palavras, imagens pra sair do comum mesmo falando do ordinário da vida”.

A seguir, ouça na íntegra Ava Patrya Yndia Yracema. Para fazer o download gratuito, visite o site oficial de Ava Rocha.