Gravadora: Independente

O nome do disco Avante tem tudo a ver com a proposta de Siba. Antes de chegar lá, é bom dizer: o músico pernambucano é perito em fazer música erudita, ou seja, revisitar o popular com temas atuais.

Com a banda Fuloresta do Samba, a visionária canção “Toda Vez Que Dou Um Passo O Mundo Sai do Lugar” serve como exemplo de que o atual tem tudo a ver com a raiz. Ou mesmo no atrito de violas que rendeu um disco inteiro com Roberto Corrêa (chamado Violas de Bronze): numa das faixas dessa parceria, ele canta que “o pouco que sabia, agora estou me esquecendo” em “Big Brother Mental”, se referindo à alienação da TV e da superficialidade da internet.

01 – Preparando o Salto 02 – Brisa 03 – Ariana 04 – Cantando Ciranda na Beira do Mar 05 – A Bagaceira 06 – Canoa Furada 07 – Mute 08 – Um Verso Preso (vocais de Lirinha) 09 – Avante 10 – Qasida

11 – Bravura e Brilho

Neste registro solo e livre, Siba chamou Fernando Catatau para a produção e puxou boa parte do disco para as guitarras. Elas são um pano de fundo que impõem o rock e diversos elementos do manguebit, como se Siba estivesse fazendo uma intersecção entre o samba descontraído do Mundo Livre S/A com a sujeira que paira na maré do Nação Zumbi.

Com a experiência de ter explorado sonoridades da Mata do Pernambuco, Siba pisa no terreno do mangue com a segurança de um proletário que já rachou muito a cuca debaixo do Sol.

O astro soa brilhante, límpido e acena para o músico em “Qasida”, onde guitarras e violas fervem ao colocar um ritmo como o coco pau a pau com um blues sujo, malévolo, fritante. Entretanto, não só aqui como em qualquer outra faixa do disco, o instrumento é um adendo que reforça a poeticidade das canções, talvez o grande ponto forte da carreira de Siba.

Em Avante, também há uma espécie de anacronismo. Ao invés de colocar os temas atuais em gêneros populares, Siba inverte a lógica: faixas como “Preparando o Salto” e “Brisa” vêm de um conhecimento empírico de alguém que vivencia as ruas, a dureza do dia a dia, o batente debaixo de um Sol de 35 graus…

O verso “Mas a brisa/Por ser carinhosa/É quem mais tem castigado” é a parábola de um ‘condenado ao vazio da calmaria’ que prevê, ainda que indiretamente, que a Natureza, ao mesmo tempo em que agracia o homem, também apunhala.

Tais construções servem para mostrar como os citadinos e sertanejos têm semelhanças. Os exemplos podem ser distantes, mas as formas de se impedir uma vida considerada ‘normal’ em qualquer um dos dois meios depende dos mesmos ‘agentes’: a inexperiência, o amor, as incertezas, a fúria da Natureza, a poesia, o trabalho. E até mesmo as formas de divertir, como Siba mostra alegremente em “A Bagaceira” ao dizer que “não fica legal com água mineral”.

O grave da tuba, junto aos efeitos do vibrafone (que proporciona uma fuzarca bem estalida na faixa-título), atrapalham qualquer tentativa de classificação. O rock está lá; ciranda, coco e maracatu também.

A única obviedade aqui é: Siba nos brindou com mais um trabalho surpreendente.

Melhores Faixas: “Preparando o Salto”, “A Bagaceira”, “Canoa Furada”, “Avante”, “Qasida”.