
01 A Voz do Povo 02 Carcará 03 Pra Mim Não 04 Peba Na Pimenta 05 Minha História 06 A Lavadeira e o Lavrador 07 Pisa na Fulô 08 O Jangadeiro 09 Fogo no Paraná 10 Ouricuri 11 O Bom Filho À Casa Torna
12 Sina de Caboclo
Gravadora: Philips
Data de Lançamento: 1965
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Emoção e estatística se cruzam: ‘Em 1950, 10% da população do Maranhão vivia fora de sua terra natal; 13% do Ceará; 15% da Bahia; 17% de Alagoas’.
Já rodeado de furor, ao final da canção, ela tem a plateia em suas mãos, atônitas diante de uma apresentação tão acachapante.
Maria Bethânia impressionou com a interpretação de “Carcará”, velada crítica a uma sociedade que sempre excluiu o Nordeste das prioridades. Até hoje sua versão da música permanece como um momento imbatível em sua carreira. Toda sua expressividade e fortaleza musical engrandeceram a canção.
João do Vale teve outras canções que fizeram sucesso na voz de grandes artistas brasileiros. “Peba na Pimenta” ganhou uma versão forrozeira de Marinês, além de integrar a trilha sonora do filme Rico Ri à Toa, de Roberto Faria. A mesma Marinês chamou a galera pra xaxar com a animada “Pisa na Fulô”, mas foi a gravação de Tom Zé que a levou diretamente aos salões de forró das capitais.
Representando a música do povo ao lado de Zé Kéti no show Opinião, em 1964, viu Nara Leão incorporar a trajetória nada fácil de um sertanejo em “Minha História”, que revela um tanto da biografia de João: ‘Mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém/Ver meus amigos ‘doutô’, basta pra me sentir bem’.
João nasceu no sertão do Maranhão e teve poucas oportunidades de vida. Só pôde estudar até o terceiro ano do primário, em Salvador, “porque foi obrigado a dar a sua vaga a outro menino ‘predestinado’, de família promissora, das promissoras posses daquela cidade”, como revelou a revista Raça.
Depois de passar por São Luís (MA), Teresina (PI), Fortaleza (CE), Salvador (BA) e trabalhar duro no garimpo em Minas Gerais, chegou ao Rio de Janeiro servindo como pedreiro. Com a gravação de “Estrela Miúda”, por Marlene, logo obteve mais espaço nas rádios, ganhando uma boa grana pelas composições (200 mil réis, ante os 5 mil réis como pedreiro).
A vida mudou para melhor na carreira de João do Vale, mas ele não deixou de cantar o sofrimento que testemunhou da maioria da população, que protagoniza seu primeiro disco, O Poeta do Povo (1965).
Na faixa inicial, “A Voz do Povo”, pega o samba emprestado para aproximar o ouvinte à sua narrativa. Identifica com o proletariado ao dizer que foi pra lista ‘dos que ia ser mandado embora’ após pedir ‘aumento ao patrão’.
Num momento em que o Governo vivia prometendo emprego, João do Vale não tinha medo de rebater a falta de oportunidade em “Pra Mim Não”: ‘Dizem que acabou a escravidão/Mas pra mim não’, transformando a canção numa dança de coco. O dançar, ali, representa o usual, o comum (dançamos, logo, se f*demos). Infelizmente, essa situação ainda não foi totalmente resolvida no Brasil, mesmo nos dias de hoje.
“A Lavadeira e o Lavrador” relata a difícil simbiose entre pessoas que ‘precisam viver’: uma pede sol pra secar a roupa, enquanto o outro ‘com o joelho no chão’ clama para chover em sua plantação.
A história de seu Zé e a família com ‘seus barrigudinhos’ em “Fogo no Paraná” é dramática, mas não deixa de ser retrato de um tempo difícil. O personagem leva a família para trabalhar numa plantação de cana-de-açúcar, que pega fogo. Ao voltar, dá falta de uma criança: ‘Cadê Toinho?!?/Responde, Toinho’.
Por ter vivenciado todas as dificuldades de viver na seca nordestina, os temas de A Voz do Povo retratam a dureza climática, laborial e social de quem mora distante dos grandes centros urbanos. As canções isoladas garantiram um teor de protesto na voz dos intérpretes: Bethânia gritou ao mundo o arraso que o Nordeste passou em “Carcará” e Nara aproximou-se do som dos morros com a sua versão de “Minha História”. (Tempos depois, Gilberto Gil incluiria no genial Expresso 2222 (1972) o xaxado “O Canto da Ema”, também de João do Vale, apesar de não incluso neste disco.)
A despeito de todas as incríveis versões, João do Vale imprimia o peso da verdade em sua voz, por mais que fosse nua, crua e nada agradável. Ele carregava as dificuldades que cantava. Dizia que ‘não foi por falta de fé ou pra fazer baião’ que largou a sua terra.
Também se iludiu com as possibilidades de trabalho nas capitais, deparou-se com a exploração, viu seus conterrâneos sofrerem com as más condições de trabalho. Como canta em “Minha História”, teve melhor sorte que os muitos ‘Mané, Pedro e Romão/Que também foram meus colegas, e continuam no sertão/Não puderam estudar/E nem sabem fazer baião’.
