Da dir. para a esq.: Wayne Shorter (sax), Ron Carter (contrabaixo), Miles Davis (trompete) e Tony Williams (bateria)

Só pelo fato de já ter tocado com Miles Davis, Wayne Shorter merece uma referência plausível no âmbito do jazz. Ele entrou para o segundo grande quinteto do trompetista em meados de 1963, um período que tornou-se essencial para a posterior ruptura no jazz mundial, que se deparava com um crescente desgaste do bebop.

Miles Davis não era desse movimento, apesar de já ter tocado com grandiosos que fundaram o estilo – Charlie Parker (o Bird) e Dizzy Gillespie. O trompetista criou o modal e estava interessado em outras vertentes jazzísticas, principalmente após o estouro de Kind of Blue, que mudou radicalmente a forma de se fazer jazz com as improvisações em cima de melodias pressupostas (apesar de nem sempre as melodias serem o principal norte dos temas).

Apesar de Wayne ser habilidoso e tocar saxofone como John Coltrane, Miles Davis queria que ele tocasse aquilo que não sabia

Naquele momento, Wayne estava mais preocupado em agradar os ouvidos de Miles Davis buscando notas similares ao sax de John Coltrane (integrante do primeiro grande quinteto de Miles e que indicou Wayne após anunciar que seguiria com seu próprio grupo).

Só que Miles queria exatamente o contrário, apesar de reverenciar muito Coltrane: queria que Wayne explorasse aquilo que ele não conhecia, ‘tocasse o que não estava lá’. E aí, Wayne foi desenvolvendo sua habilidade no sax tenor (menos agudo) a partir da liberdade cedida por Miles. E ele pegou rápido.

No primeiro LP com o quinteto de Miles Davis, ESP, o saxofone de Wayne criou toda a ambientação hard bop da faixa-título, intercalando notas de difícil alcance com o ritmo orquestral de Miles Davis e fazendo uma espécie de queda e ascensão rítmica. Essa energia foi absorvida de forma esplêndida pelos demais integrantes: Tony Williams arrebenta no compasso da bateria, Herbie Hancock toca um piano flutuante e Ron Carter intercala seu contrabaixo em velocidade descomunal.

Miles Davis: “ESP”

ESP deu o gás necessário para que a banda fosse se consolidando como o segundo grande quinteto de Miles Davis. De fato, o trompetista estava curiosamente interessado no vigor de cada um desses integrantes (Tony Williams tinha apenas 17 quando veio tocar com a banda pela primeira vez). Tirando Miles, Wayne era o integrante mais velho e acabou se tornando um dos principais compositores não só do quinteto, mas sim do jazz como um todo.

Wayne Shorter veio a explorar posteriormente uma das maiores descobertas do jazz no final da década de 60: o fusion. Ele pode ter ficado confuso ao buscar no free jazz a referência mais próxima para tocar sax soprano naquela estranha sessão de In a Silent Way, em 1968.

Porém, com a aceitação do público (que só veio depois) e da crítica após o anárquico Bitches Brew, Wayne pegou essas referências ‘elétricas’ e criou com Joe Zawinul o grupo de fusion Weather Report. Anos antes, o saxofonista já havia tocado com outros músicos pela Blue Note, como o virtuoso pianista McCoy Tyner (do grupo de John Coltrane).

A partir daí, iniciava-se uma prolífica carreira solo de um compositor de jazz que provavelmente ainda não tem sua importância dimensionada.