Post originalmente escrito em 16 de outubro de 2012

‘Cadê o retorno, porra?!?’

Uma das exigências mais conhecidas de um certo Síndico aí pode ser aplicada aqui: como um site de música com ‘groove’ no nome não fez uma homenagem aos 70 anos de Tim Maia (completados dia 28 de setembro)?

Tá aqui o retorno, chefia!

Apesar de ser um chato de galochas, Tim Maia foi um dos maiores músicos do século XX (e, segundo a Rolling Stone Brasil, a maior voz brasileira de todos os tempos). E não digo por exagero. Ele trouxe uma nova forma de cantar a música popular brasileira. Com seu grave que beirava a rouquidão, foi o maior ícone da música soul em nossas terras.

Claro que para isso foi muito importante sua breve passagem nos Estados Unidos quando ainda era jovem. Apesar de passar uns bons perrengues, lá ele captou o som do que acontecia no Brooklyn e, de volta ao Rio de Janeiro, incorporou à sua formação musical um swing ainda maior do que já tinha quando integrava os Tijucanos do Ritmo e o The Sputniks (com Roberto Carlos). (Mais informações sobre a vida de Tim Maia, confira a resenha da biografia Vale Tudo, escrita por Nelson Motta.)

Como Tim Maia é tudo festa e exageros, as comemorações de seus 70 anos ainda continuam no Na Mira. Para provar, este que vos escreve decidiu comentar toda a discografia do síndico.

É possível dizer que o Síndico teve, sim, várias fases. Em todas elas ele atingiu tanto o ápice, quanto a decadência. Nos primeiros discos, explorou o soul-funk e registrou alguns dos maiores clássicos de sua história: “Primavera (Vai Chuva)”, “Azul da Cor do Mar”, “Não Quero Dinheiro”, “Gostava Tanto de Você”…

Junto com o bombardeio comercial, Tim Maia celebrava os excessos bebendo whisky, fumando ‘bauretes’, cheirando pó, tomando mescalina. E, de um dia para outro, ele entra na mística fase Racional, renegando os clássicos anteriores e se apresentando de branco para divulgar o livro Universo em Desencanto. Manoel Jacintho, o ‘racional superior’ que escreveu o livro, supervisionou as composições, deixando-as ainda mais panfletárias. No entanto, essa é uma de suas fases mais celebradas, por pelo menos dois motivos óbvios: 1º) a banda estava afiadíssima – que sonoridade boa!; e 2º) Por ter sido distribuído de forma independente pela gravadora de sua propriedade, a Seroma, poucas unidades foram comercializadas. (Também há quem ache essa fase de certa forma espirituosa, mas esse atributo é mais pessoal, vai de quem escuta – afinal, não se pode negar o lado excessivamente panfletário desse período.)

Após achar que estava sendo enganado pela filosofia que tanto defendera, de uma hora para outra ele largou tudo e proibiu as vendas de outras unidades. Os dois LPs dessa fase são raros e, caso consiga encontrar, não é nada barato. De tão mística que é essa fase, no ano passado foi lançado o Racional 3, com faixas até então inéditas (não comentamos esse disco nesta seção, mas há detalhes aqui).

Nos primeiros anos após essa fase, o Síndico tentou emplacar algumas composições em inglês, mas nem de longe chegou a ter a repercussão dos primeiros discos. Nesse tempo, ele percebeu que teria de se reinventar e pegou um gancho oportuno: a disco music. “O rei do soul não considerava a discoteca música de branco, das cocotinhas da zona sul; para ele, ela não era oposta, mas complementar ao soul negro da galera da zona norte. Tim se sentia muito à vontade ao lado de Kool and the Gang e do Chic”, escreveu Nelson Motta na biografia Vale Tudo.

Daí veio o sucesso de Tim Maia Disco Club (1978), fase que prosseguiu até o homônimo de 1980.

Em 1982, ele lançou o excelente Nuvens pela Seroma, que não teve boa distribuição e, consequentemente, não lhe rendeu sucesso – que só viria com o hit “O Descobridor dos Sete Mares”, do álbum de mesmo nome.

Ele colheu bons frutos com o hit, mas estava em pé de guerra com gravadoras, pulando de uma pra outra. Isso prejudicou sua fase artística e lhe rendeu inúmeros processos judiciais. A estabilidade só veio no final dos anos 1980, com o lançamento de Carinhos, que mostrava um Tim Maia mais focado em composições românticas.

Foi nessas buscas interiores que, nos anos 1990, o músico decidiu cantar bossa nova – gênero que, a partir de então, estaria incorporado em sua obra até o fim de sua carreira.

Conforme os anos se passaram, Tim registrou vários e vários hits, além dos já citados: “Do Leme ao Pontal”, “Paixão Antiga”, “Vale Tudo”. E deu outra chance às suas composições em inglês, que também não devem nada aos clássicos no quesito qualidade.

Nessa Discografia Na Mira de Tim Maia, optamos por resenhar somente os trabalhos de estúdio mesmo. Todos sabem que ela é bem extensa: 28 discos de estúdio (mais um póstumo), 2 ao vivo (mais um póstumo) e 17 coletâneas – sem deixar de mencionar as participações nos álbuns de Eduardo Araújo (A Onda é Boogaloo, 1969), Elis Regina (Em Pleno Verão, 1970), Sandra de Sá (compacto Vale Tudo/Quero Ver Você Dançar, 1983) e Gal Costa (Bem Bom, 1985), além do tributo de 1999.

Também não entramos em detalhes de compactos (foram 22). Afinal, de uma forma ou de outra, as canções se encaixaram nos discos.

A intenção deste post especial é analisar a obra do Síndico, apontar os hits, se emocionar com algumas lindezas, sentar o pau nas decepções e redescobrir muitos (e são muitos mesmo) clássicos perdidos. Fizemos uma reavaliação de cada um dos 28 discos, para que você tenha uma noção básica da representatividade de cada obra. As estrelinhas estão aí para serem discutidas, discordadas, criticadas, elogiadas. Dispare nos comentários!

E quem valoriza o fone de ouvido enquanto navega vai gostar de saber que é possível ouvir o principal hit de cada álbum em uma playlist contínua, que fica no player localizado no canto inferior esquerdo da página (o player deve aparecer a partir da próxima página). As canções são mencionadas ao final de cada resenha de disco (‘Ouça’). É só apertar o play na música que deseja.

Boa navegação!