Um telão branco no fundo do palco estava claramente cobrindo uma imagem. Uma imagem vivaz cheia de pessoas, onde se destacavam as cores rosa, amarelo e laranja. O palco estava lotado de instrumentos – tanto que os obstáculos não eram poucos para os roadies e músicos transitarem por ali. O maior espaço, claro, era do piano de cauda.
Antes de falar sobre o show do The Gift é importante saber que os dois últimos álbuns são bem diferentes um do outro: em 2011, a banda portuguesa assimilou tudo quanto é cor como argumento para um rock vigoroso, que resultou em Explode. No ano seguinte, tudo ficou em preto-e-branco: num clima mais intimista e soturno, lançaram Primavera.
Para o show de ontem no Sesc Pompeia, a banda decidiu tocar o repertório dos dois discos – começou com Primavera, terminou com Explode.
Legal na teoria – mas será que é aplicável na prática?
Entraram os músicos, e logo Nuno Gonçalves tocou os primeiros acordes de “Black” no piano. Todos estavam vestidos de preto; o único contraste era o cabelo cor-de-fogo da vocalista Sónia Tavares, que não demorou a mostrar serviço na bela “La Terraza”.
Uma salva de palmas, logo o The Gift cairia na falha de execução. Não execução de música, tocada de forma bem parecida com os discos. Mas houve uma preocupação excessiva em explicar o conceito do álbum Primavera para o público. O que deveria ser uma apresentação unicamente melancólica e dramática em pouco tempo se contrastava com brincadeiras e risos.
Bom-humor é sempre bem-vindo numa apresentação, mas porque eles não deixaram esse clima de falácia para a segunda parte do show, com as canções de Explode?
Assim, ficava difícil mergulhar na densidade de uma “Senhsucht” e, do nada, se deparar com Nuno contando um causo de como foi confundido com Dr. Ray (aquele das plásticas).
Para cada canção, havia uma pausa desnecessária. E o disco ao vivo perdia todo o significado. Imagens no telão e cores escuras, para quê? Estávamos diante de uma banda que faz melhor tocando música pop, feitas para pular e dançar. (E como gostam de falar estes portugueses, viu!)
Nisso, a banda supriu bem com a segunda parte do show. Calça laranja, blusa rosa, camiseta verde: tudo para que o clima fosse bem assimilado. Ao invés do piano, o teclado.
Entra a introdução de “Let It Be By Me”, e o público começa a levantar (talvez boa parte já tivesse fatigado com o fiasco da primeira parte). Sem interrupções por conta do prolongamento enfadonho de tantas falas, faixas como “The Race is Long” e “My Sun” provaram que a verdadeira aura da banda está em levantar o público – com música de qualidade.
Baita experiência foi presenciar as inúmeras viradas de “The Single”, tido pela vocalista como a preferida de Explode. Sem cansaço, ver a potência vocal se deslizar em sintetizadores melancólicos e uma bateria fulgurante de Mário Barreiros, por si só, já valia todo aquele tempo gasto (eis aí uma bela herança de “Bohemian Rhapsody”, do Queen).
Classificar como um todo o show de ontem do The Gift é uma tarefa dúbia. Gosto mais de Primavera do que Explode, mas seria injusto dar uma resolução negativa para o show. Além da inedaquação de espaços para trabalhos tão diversos, não dá para simular melancolia e alegria numa mesma apresentação – ainda mais quando se fala de uma banda tão carismática e pra cima como o The Gift.
Demais datas
A turnê do The Gift no Brasil ainda segue. Confira as demais datas:
São Paulo (SP) Dia: 4 de maio Local: Sesc Pompeia
Ingressos: R$ 10 a R$ 20
Bauru (SP) Dia: 8 de maio Local: Área de Convivência do Sesc Bauru
Entrada gratuita
Ribeirão Preto (SP) Dia: 9 de maio Local: Galpão de Eventos do Sesc
Ingressos: R$ 10,00 a R$ 2,50
Araraquara (SP) Dia: 10 de maio Local: Área de Convivência do Sesc
Entrada gratuita
Rio de Janeiro (RJ) Dia: 11 e 12 de maio Local: Oi Futuro Ipanema
Ingressos: R$ 20 a R$ 10
