Destroyer – Kaputt

Músicos canadenses são peritos em fazer música de qualidade, mas penam para conquistar o inatingível estrelato. Não é questão de aceitação; é que realmente o pop jamais abriria espaço para grupos ditos conceituais, que preferem inovar do que apostar em técnicas convencionais quando o negócio é fazer rock de qualidade.

Um desses grupos é o Destroyer, projeto de Daniel Bejar, do The New Pornographers. Kaputt é o nono álbum de estúdio e talvez o que melhor se encaixe nessa era em que o ritmo sofre de crise existencial. Há doses de experimentalismo, sim, mas a dinâmica criada entre o soft rock e o sax de fundo gerou um casamento perfeito, graças ao clima soturno proporcionado, principalmente, pelos vocais de Bejar.

Misturar nuances do jazz com rock não é exatamente algo novo, mas fazer disso uma abordagem indie, por mais que aparente ser um tiro no pé, foi uma ousadia admirável – e que gerou excelentes resultados. O primeiro single, “Chinatown”, conta com arranjos que lembra objetos arremessados ao relento, além dos gritos e elementos meio subaquáticos. Mas oferece conforto ao ouvinte pela bonita simbiose entre o saxofone e os riffs suaves.

Destroyer: “Chinatown”

Totalmente intimista, Kaputt dá uma nova estética ao soft rock, sugerindo uma nova possibilidade ao fusion, que se caracterizou como a união entre rock e jazz. Só que, enquanto o fusion se munia da agressividade instrumental, o Destroyer sugere uma relativa calma, puxando mais elementos do smooth jazz.

Destroyer: “Suicide Demo For Kara Walker”

Música ambiente também está mais presente do que nunca – vide “Suicide Demo For Kara Walker”, que propõe uma densidade melódica ao contar a crônica da artista afroamericana Kara Walker, que utiliza silhuetas em suas obras para expor o racismo e a exploração sexual de forma virulenta e impessoal, reflexo de uma realidade que ainda assombra o continente. “Agora que você entendeu tudo… errado/(…)Entre pela saída e saia pela porta/Quando você puder”, encerra a canção, dando a entender que uma praga ainda não foi dissipada com a modernidade: o preconceito.

Há também o flerte com os primórdios da new age, principalmente no período pós-Joy Division, onde a tristeza desoladora começava a dar lugar às canções dançantes. “Savage Night at The Opera” resgata essa sobriedade, com uma virada espetacular que dá lugar a um solo típico indie: sem muitas ousadias nas notas.

Destroyer: “Kaputt”

A faixa título é pontuada por sintetizadores e uma suave linha jazzística, que entram em contraste com a decadente letra que fala sobre desperdício de tempo com baladas supérfluas e drogas como cocaína. “Tudo soa como um sonho pra mim”, versa Bejar.

“Song For America”, talvez a melhor do disco, faz uma espécie de mistura das diversas facetas musicais de David Bowie: aquele sax de “Young Americans”, os solos psicodélicos de ‘Heroes”, o intimismo de “Station To Station”… Incrível, dá pra ver tudo disso nessa canção, mas ao mesmo tempo ela parece não existir no tempo. A melodia é linda e os solos são tão bem executados, que qualquer comparação chega a soar injusta.

Destroyer: “Song For America”

Obra-prima precoce, Kaputt já pode ser considerado, antecipadamente, um dos melhores álbuns de 2011. Para ouvir o álbum na íntegra, visite o site do Hype Machine.