Nenhum outro bluesman teve largo reconhecimento de público e crítica como B. B. King. Ainda que não seja o nome mais importante do gênero, ele é, certamente, o mais conhecido, sem demérito algum.
Manter-se ativo nos palcos até 2014 foi importante não apenas em sua carreira, mas na propagação do blues.
B. B. King foi o último elo de ligação da música contemporânea ao blues clássico, por isso, normal perguntar-se quais serão os próximos passos do gênero daqui pra frente.
Fato é que ele representou a segunda fase do blues, quando a guitarra elétrica passa a ser predominante
Seu legado jamais será esquecido, assim como sua técnica, jamais equiparada – ainda que caras como o consagrado Eric Clapton tenham dito que “tudo que fiz foi imitar B. B. King”.
A forma com que este bluesman tocava guitarra dizia mais que as letras de suas canções, a maioria sobre a relação de um homem com a mulher.
No sentido estrito, seus solos espaçosos definiam a emoção que cada música tinha que passar. Muitos ouvintes neófitos passaram a ter ideia do que representa o blues a partir das canções de B. B. King: “The Thrill Has Gone”, “How Blue Can You Get?”, “Why I Sing the Blues”, entre outros.
Fato é que ele representou a segunda fase do blues, quando a guitarra elétrica passa a ser predominante. Nos anos 1940 e 50, puristas acharam que essa seria a ruína do gênero.
A longevidade da música de B. B. King é mais um forte argumento de que os detratores estavam errados. Ainda que não fosse considerado um inovador em questão de utilização de equipamentos, B. B. King sempre soube que o blues tinha uma essência a ser mantida. Permitiu fazer o que alguns consideraram ‘deslizes’, como a gravação do álbum Love Me Tender (1982); mas, também, se arriscou ao gravar na prisão o show que resultou no histórico Live in Cook County Jail (1971), uma das performances mais inspiradoras que já registrou.
Só o fato de estar em plena atividade já lhe rendia o termo ‘grandioso’. Como bem afirmou o historiador musical Joachim-Ernst Berendt, B. B. King trouxe para a guitarra do blues o que Jimi Hendrix trouxe para o rock e Wes Montgomery trouxe para o jazz – todos nos anos 1960.
“B. B. King ‘cavalga’ o som da guitarra: ele corre, salta, monta; esporeia e solta as rédeas; trava-as novamente, desmonta e pula para o próximo cavalo, ou seja, o próximo som. (…) Nos anos 1960 e no começo dos anos 70, B. B. King atingiu o ápice de um desenvolvimento que apresentava respectivamente a história e a pré-história do blues. T-Bone Walker teve uma importância especial na construção desse caminho que vai da guitarra de blues rural até as frases ‘galopantes’ de B. B. King.”
Músicos como Buddy Guy e Steve Ray Vaughan são influências declaradas no campo do blues, mas o que verdadeiramente impressiona é o seu alcance no rock: Clapton, Jimi Hendrix, Jeff Beck, Keith Richards, George Harrison, Jack White, entre muitos outros, trouxeram à música popular a valorização das poucas notas. Seria impensável hits como “Jumpin’ Jack Flash”, “Layla” ou “While My Guitar Gently Weeps” sem a característica de valorizar cada nota “como se fosse mil”.
Descanse em paz, gigante.
