É do mangue, mas com muito mais guitarras. “Eu tô no top five dessa cena explosiva”, diz uma das canções, “Gengibre”.
Se o quesito for qualidade, faz todo o sentido: o que Angelo Souza realiza com o projeto Graxa é de um vigor criativo e enérgico, que alça o rock’n roll a um patamar a léguas acima da média produzida na música nacional.
Graxa está no segundo disco, Aquele Disco Massa (o primeiro, Molho, é de 2013). E, pelo que apresenta, parece não estar nem aí pra onde tudo vai. Isso ele explicita em “Eu Acredito Há Muito Tempo”, quando canta: ‘Embora o agora esteja em voga/Eu não revogo nad’aquilo do que eu sou‘.
Do primeiro disco, Molho (2013), pra cá, as coisas mudaram: ele reuniu bons músicos, como Rama (guitarra rítmica), Hugo Coutinho (baixo) e Tiago Marditu (bateria). No estúdio Engenho do Som, em Jaboatão dos Guararapes (próximo ao Recife), fizeram as gravações ao vivo, no clássico jeitão rock’n roll.
“A gente fez as linhas de batera, vibe ao vivo total, e depois foram feitos os overs, na casa do baixista: Rama Om”, conta Graxa.
Graxa fica com a guitarra base e vai do sarcasmo à agressividade, sem necessariamente o ouvinte perceber, nas 12 faixas do álbum.
Muito além da garrafa de cerveja que ilustra a capa, Graxa foi a fundo para nos dar uma noção ainda mais complexa de Aquele Disco Massa, oficialmente lançado em 11 de maio. Confira:
De onde veio a principal influência do disco?
As principais influências deste disco são políticas culturais, consumo musical e o personagem envolto nisso: o “artista”. O disco gira em torno disso, desde a primeira – mesmo ela sendo instrumental – até a última.
A maioria das composições possui trocadilhos. Todos eles vêm de ‘discos massa’ que você ouviu? Quais são os ‘discos massa’ pra você?
Os trocadilhos, se não me engano, estão nos títulos, em “Soul Socialista” e em “Eu não Kiss”. Esse negócio dos trocadilhos é que eu viajo mesmo nas palavras e nas sonoridades que elas fazem ou podem fazer, saca? Quem tinha muito disso – como um dos primeiros e como referência – era James Joyce. Outro que eu também curto muito nessa linha de pensamento é Carl Solomon, com seus textos maravilhosos e dadá. Sou muito fã. E aí é isso.
Os discos massa pra mim mudam de acordo com o tempo, mas alguns são “tabelados”, né? A capa do disco faz referência ao A Love Supreme (1964), do Coltrane. A ideia do bar já é mais voltada pro sambista Cartola – que só faz “discos massa”. Eu gosto do White Album (1968), dos Beatles. Gosto do Kinks – tipo, o Village Green (1968), Face to Face (1966), Something Else (1967), e tantos outros. Gosto muito também de um cara que tinha uma banda, lá do Texas, chamada de Red Krayola. Mayo Thompson o nome dele. O disco solo dele é muito bom: Corky’s Debt to His Father (1970), pode catar que é valendo!
Todas as grandes movimentações musicais no mundo foram feitas assim: pequenos núcleos que movimentavam cidades e que trocavam experiências e ações entre si. Precisamos mais disso, ou voltar a isso, pra que a turma pare de lotar casa de show pra ver U2 cover
A discografia do Velvet Underground. O rock de Detroit: MC5, Stooges. O Madcap, do Barret. Pô, tem seu Elino Julião, que eu sou fanzaço total. Os “malditos” da MPB, saca?
Outro super mestre é Arnaud Rodrigues, que pouca gente sabe, mas tinha um trabalho sensacional como compositor, dentre tantos outros trabalhos que ele dominava. Dele eu recomendo o Murituri (1974)! Ah, tem o Di Melo… Oxe, tem fim não! São vários discos massa e o meu se refere a todos eles e aos que eu esqueci.
Em “Pesquisa Institucional do Mercado”, você fala da treta em ser músico e ser jornalista. Passou por dificuldades (provavelmente financeiras)? Tem uma visão distópica sobre o ‘crescimento’ nessas profissões?
Não. O lance do crescimento é algo bem perigoso no sentido de crescer pra depois morgar, acabar. O que eu falo nessa música é sobre a questão de se manter, juntar forças pra que se possa respirar com parcos recursos, saca? Tanto um como outro quer informar e formar opinião, como também, entre essas duas classes, existem os que não querem absolutamente ‘porra nenhuma’, tipo o cara que faz uma matéria dizendo que “Mariah Carey espirrou e limpou o nariz com um guardanapo do McDonalds”, ou então uma galera que faz música nessa mesma vibe. Que faça, e que gostem, mas que existe um motivo pra que isso aconteça, e pra que gostem, é onde que está o grande lance disso tudo. Também existem aqueles que querem modificar e prejudicar, escrevendo, ou compondo, pra mamar e dar de mamar.
Apesar do tom de brincadeira, “Eu Não Kiss” mostra o quanto boa parte do público anda muito apegado aos ‘deuses do rock’, como você menciona. Vê isso como uma barreira na cena musical daqui? Como o público entende a sua música?
Vejo. Uma mega barreira gigante e monstruosa. E ela é construida em cima desses sistemas culturais ultrapassados e feiosos. Isso só vai ser derrubado quando a visão de apoio for voltada para o desenvolver do local em pequenos espaços e em ambientes periféricos, e não apenas no que é central e grandioso, ao que é mega.
Pequenos núcleos precisam ser criados e sua manutenção é essencial para que tudo se movimente. Pra que o guri da geral veja algo que pra ele é sempre distante e distorcido, saca? Pra que ele se sinta incluso e não afastado do lance. Todas as grandes movimentações musicais no mundo foram feitas assim: pequenos núcleos que movimentavam cidades e que trocavam experiências e ações entre si. Precisamos mais disso, ou voltar a isso, pra que a turma pare de lotar casa de show pra ver U2 cover, ou pra que a turma pare de pensar que tudo que rola em tal veículo é o louvável, saca?
A turma tem que inserir. Inserir mesmo, e não dizer que está inserindo. Segregar é deprê! Afastar e dificultar espaços e oportunidades também. Tem mais coisas, mas é em cima desse lance! O negócio tem que se ampliar, e não ficar recluso pra poucos.
O diálogo das guitarras com as percussões me parece ser uma forte marca no álbum. Como a musicalidade foi construída?
A construção do disco foi a seguinte: tem um estúdio, que foi o primeiro em que comecei a gravar rock com a galera. Fica em Jaboatão, uma cidade bem próxima aqui de Recife. O nome do estúdio é Engenho do Som. Foi lá que tudo começou – desde meu lado como músico, como as gravações desse disco. Funcionou assim: a gente fez as linhas de batera, vibe ao vivo total, e depois foram feitos os overdubs, na casa do baixista: Rama Om. Alguns overs desses foram feitos na minha casa.
Por fim, o disco foi mixado e masterizado por Adriano Leão, que faz parte de uma equipe de Recife que trabalha com tecnologias valvuladas em caixas, cubos e esses equipamentos em geral. O pessoal é fera total.
É, o ritmo do disco, é massa. Percussão, batera, baixo, guitarra, tudo em busca do grande agito.
Nessa trajetória, com quais ideias teve que confrontar para chegar onde chegou?
Espaços pra tocar. Atraso de cachê. Dificuldade de que esse cachê – que atrasa – aumente. Eu não posso apenas ser o grande “Kevin Style” do rock, tenho que trabalhar numa oficina mecânica com meu coroa e a galera aqui do Jiquiá. O sistema cíclico de trabalho é totalmente importante em qualquer função da vida. Tanto o da oficina quanto o do rock, tão deprê, mas mesmo assim não dá pra morgar. Essas fases sempre modificam.
Ensaiar é fera, e tal, mas nunca vai ser o mesmo que apresentações. “Jogo é jogo, treino é treino”, né? Todo mundo precisa exercer o que faz. Trabalhar e gerar as coisas. Manter ritmo: “Eyes of the tiger“.
Para isso, pra quem toca o rock, ou conserta calhas de telhado, ou que queira dirigir um ônibus, ou que queria ser um grande surfista brasileiro, ou mundial, ou que queria fazer grandes peças mecânicas, ou teatrais, ele precisa exercer aquilo que deseja, e precisa de condições pra isso e que elas sejam bem dignas, tanto pra quem está querendo oferecer, quanto pra quem tem a necessidade disso.
Complementação total, mora? É Isso!
A gente tem que ficar esperto, porque tem aquela galera da pesada que quer vencer a gente no cansaço, e eu já tô cansadão disso.
