Gravadora: NPG
Data de Lançamento: 12 de dezembro de 2015
Envelhecer é uma subversão que Prince se recusa a aceitar. Boa parte das músicas que ele lançou desde Art Official Age/PLECTRUMELECTRUM (2014) clamam pelo reaceite de seu legado.
Quando diz, em “Rock & Roll Love Affair”, que o personagem ‘acredita no rock’n roll‘, ou quando canta ‘Pode ouvir o som? É melhor levantar-se, levante, levante/Assim, podemos descer‘, em “Groovy Potential”, como forma de mensurar uma paixão, utiliza as simbologias musicais a partir do mais básico dos arquétipos de filmes adolescentes dos anos 1980. Se é rock, é foda. Se tem groove, é foda. Se tem os dois, vixe!
É complicado pedir que Prince soe sincero com o que o avançar dos anos artisticamente representa. Muitos dos paradigmas sexistas em torno da cultura pop tiveram em Prince seu principal detrator, e eles estão longe de serem negados nos seus últimos discos – especialmente em HITNRUN Phase One (2015), lhe renderam uma energia peculiar para captar, à sua maneira, as extravagâncias que os dias de hoje corroeram de seus avanços (ele só poderia ter selecionado melhor as participações, ainda que a faixa com Rita Ora, por exemplo, seja instigante).
O segundo produto dessas aventuranças é musicalmente mais sólido, embora o discurso tenha lá suas redundâncias. “2 Y. 2 D.”, por exemplo, dá um ar ‘moderno’ ao separar por termos que a moça é ‘nova demais para dançar‘ (ou, ‘to young to dance‘). Ela não passa de uma música de baile de colégio – tanto que se você resolver encarar HITNRUN Phase Two dessa forma, não conseguirá tirar da cabeça aquela imagem de adolescentes pós-colegial em comemoração testosterônica.
O disco é a trilha sonora deveras adequada desse momento perfeito juvenil que muitos sonham, mas inexiste.

Crítica: Prince | HITNRUN Phase One
Mas, peraí… O disco começa com “Baltimore”, o lamento de Prince (ao lado de Eryn Allen Kane) dedicado às vítimas diárias do racismo dos policiais norte-americanos brancos em relação aos cidadãos negros. A canção, por si, é um opus, uma das melhores coisas que Prince fez em anos. Ele soou sincero num clamor de reflexão nesse momento tão delicado que tem servido de inspiração a grandes discos de Run The Jewels, D’Angelo e Kendrick Lamar.
Envolto num álbum de 15 faixas como Phase Two, todavia, “Baltimore” está passível a um contexto. Lembra quando ele pede paz ao propor: ‘é hora de ouvir a guitarra tocar‘? De certo ponto, não oculta a necessidade arquetípica, que mencionamos no início do texto, de criar uma simbologia da cultura pop que o rebaixa à condição Dinho Ouro Preto do que se entende como ‘cara legal da música’. Esse ponto não tira o crédito de “Baltimore” enquanto single (um ótimo single), mas expande o debate sobre como a adoção de trejeitos tem comprometido a obra de Prince.
A linguagem não define os propósitos de um artista, mas dá pistas sobre como ele quer se comunicar com o público. Esse entendimento faz sentido quando se trata de Prince: desde os anos 1980, seus shows são magníficas verborragias culturais que revelaram posicionamentos louváveis: adotar uma banda só com garotas e mostrar que é possível mesclar as expressões da música negra e do rock’n roll, no momento em que os gêneros mais se distanciavam, são alguns dos possíveis levantamentos que surgiram após a turnê de 1999 (1982) ou Sign “O” The Times (1987).
Música de baile de colégio: se você resolver encarar HITNRUN Phase Two dessa forma, não conseguirá tirar da cabeça aquela imagem de adolescentes pós-colegial em comemoração testosterônica
Prince é um elo inquebrável do que a expressão musical representa, e testemunhar isso se reduzir à mera música de baile, desprovido de ousadia técnica (embora o virtuosismo seja marca indelével de sua música), é algo difícil de aceitar.
Seria forçar a barra demais achar que emular o clássico “Kiss”, em “Stare”, ou que as distorções pulsantes de “Screwdriver” sugiram uma nova abordagem, uma quebra de paradigmas. Não se cobra isso de um artista, menos ainda quando se é um pop-star, como Prince.
HITNRUN Phase Two é, em todas as instâncias, uma obra de um pop-star. Pelo menos, nisso, ele manteve o estilo à moda antiga e não entregou-se à melancolia perene que baixou de vez no pop como um todo, de Justin Bieber a The Weeknd.
Chamemos Prince de ‘old-fashioned hitmaker’.
