Gravadora: NPG
Data de Lançamento: 14 de setembro de 2015
Finalmente, Prince! Finalmente o compositor usou o sex appeal a seu favor, fundiu as experimentações com o funk numa sonoridade moderna e invadiu o pop plastificado de hoje com estilo e altura. E bota altura nisso.
HITNRUN Phase One possui os slaps e riffs de guitarra que gostaríamos de ouvir em Art Official Age (2014). Tem a ousadia e a criatividade que escapou das primeiras músicas de PLECTRUM ELECTRUM (2014). Afinal, pouco adiantava separar duas essências em dois discos, quando um só faria melhor em trazer de volta um Prince que ao menos estivesse minimamente condizente com o pop atual.
Empolgação é um termo que cai bem a HITNRUN porque ele é ágil, swingado, musicalmente dinâmico e bem instigante. “MILLION $ SHOW” parece uma ideia extraída de algum disco dele dos anos 1980, mas não demora para que o compasso à lá show business levado por Judith Hill garanta o chacoalho inicial. Na seguinte, “SHUT THIS TOWN”, Prince não economiza as cordas vocais e sugere um bombardeio sônico com a mesma pretensão do ‘coração gelado‘ que quer atacar a cidade. Synths poderosos e slaps esparsos evocam um alarme envolvente que lembram bastante Bootsy Collins, com quem já trabalhou.
Há muitas guitarras; Há muitas batidas eletrônicas; Há sensualidade e desejo em altas dosagens testosterônicas
Tomando emprestado elementos da música árabe, logo o compositor toma os holofotes em “AIN’T ABOUT TO STOP”, como se quisesse competir por um título que, na versão feminina, corresponde à Madonna – usando como artifício quem? Rita Ora. Pesa para Prince, porém, o pleno domínio da ginga funk, onde a sobreposição eletrônica, apesar de volumosa e massiva, é mero delinear em suas mãos.
“HARDROCKLOVER” excede um pouco na tentativa de agregar vocoders, mas pelo menos compensa com boas guitarras. A instrumental “MR. NELSON” dá uma nova guinada na fase ‘compositor de trilhas’ de Prince, colocando o clichê das batidas ‘summer techno‘ num funk-rock que cresce e desemboca bem em “1000 Xs & 0s”: de forma melíflua, Prince compôs com facilidade o som que Justin Timberlake demorou anos para associar como nova reputação musical. Quem sabe não seja um aceno?
“THIS COULD B US” ensaia um momento à dois, mas faz questão de se apoiar em reverbs cromáticos. Em suma, a mensagem é a seguinte: somos nós agora, não pra eternidade. Já revelada em Art Official Age, esta renovada versão tem uma bateria mais eletronizada, correspondendo a um rock-EDM tão jovem quanto o produtor de 25 anos Joshua Welton, um dos grandes responsáveis pela renovação sonora do álbum.
Welton, inclusive, chegou a dizer que HITNRUN é um trabalho ‘experimental’, denominação que não funciona muito bem para quem carrega no currículo discos como Sign ‘O’ The Times (1987) e Diamonds and Pearls (1991). O termo ‘conceitual’ seria mais plausível, mesmo que de forma subjetiva.
Em HITNRUN, Prince deixa claro que quer sua música remixada nas picapes, tocando em Ibiza, explorando arestas do pop atual que o apego às convenções musicais do passado teimam em resistir.
Aqui, Prince estabelece uma reconciliação musical para figurar no imaginário jovem. Observemos o contexto:
• Produtor com menos de 30 como parceiro (Prince tem 57); • Uso do termo ‘experimental’ para designar um disco que cativa mais pela surpresa sônica que pela complexidade lírica; • Após muita birra com as plataformas digitais, ele finalmente fechou com uma – mesmo que seja a mais ambígua de todas (Tidal); • Há muitas guitarras; • Há muitas batidas eletrônicas;
• Há sensualidade e desejo em altas dosagens testosterônicas.
Nenhuma carta de intenções precisa ser apresentada: em HITNRUN Prince deixa claro que quer sua música remixada nas picapes, tocando em Ibiza, explorando arestas do pop atual que o apego às convenções musicais do passado teimam em resistir.
(Talvez por isso mesmo “Baltimore”, o excelente single sobre os casos de violência de policiais brancos contra cidadãos negros nos EUA, ficou de fora. Pode ser lamentável, mas não deixa de ser oportuno: tudo em nome da coesão, ainda que ela seja comprometedora.)
Ele não degrada o legado que construiu, mesmo porque o passado é tão insólito quanto a mais resistente rocha do Mediterrâneo. Deixe que o mestre resista, firme como minério, à cruel passagem do tempo.
