Gravadora: Stones Throw
Data de Lançamento: 4 de setembro de 2015

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Damon Riddick tem mais de 40 anos, mas é dos nossos tempos. No segundo disco com o seu projeto Dâm-Funk, que apresenta uma visão futurista para o funk, ele deixou o arsenal bem preparado. Chamou pelo menos 13 músicos de grande porte no gênero, de diferentes gerações, diferentes prismas, numa odisseia musical de mais de 80 minutos encapsuladas em 20 faixas.

Invite the Light é um convite, sim, mas não à historiografia do funk, apesar das muitas de suas variações musicais marcarem passagem. O álbum explora ramificações de um ponto de vista que, em duas ou três audições, o ouvinte começa a captar: é mais Dâm-Funk do que uma verossimilhança à gênese do ritmo. Do disco-funk clássico de “We Continue” ao som mais lento, de salão, como faz em “Glyde 2Nyte”, que traz colaboração de Leon Sylvers III – um dos mais criativos e bem-sucedidos produtores da SOLAR Records, associado ao programa Soul Train, de Don Cornelius – e seu filho, Leon Sylvers IV, o Dâm-Funk insere uma característica moderna, mais aviltante e quebrada, aos contextos variados em que o funk se insere. Lento, voraz ou límpido, para o Dâm-Funk não falta espaço para uma tortuosidade aqui ou acolá.

Em Invite the Light, o Dâm-Funk insere uma característica moderna, mais aviltante e quebrada, aos contextos variados em que o funk se insere.

Em busca de propor uma nova irradiação ao funk, chama Snoop Dogg em “Just Ease Your Mind From All Negativity”, aceitando o fato de que BUSH (2015) tem algo a oferecer para o desenvolvimento do gênero, no estilo melífluo de Pharrell (que aqui não tem participação, ainda bem). Na verdade, o envolvimento dos dois é um pouco mais antigo: no final de 2013, Dâm-Funk e Snoop se reuniram para o projeto 7 Days of Funk. As claves de guitarra desta canção flertam com o que o Parliament testou em suas fases mais obscuras.

Q-Tip é outro rapper que muito tem a oferecer à proposta de Dâm-Funk. Saturado por sintetizadores e pulsações que ficam no meio-termo entre techno e drum’n bass, “I’m Just Try’na Survive” serviria como o hit das baladas de 2050 por sua manutenção rítmica assimétrica e tão bagunçada quanto nossa visão do que teremos pela frente. O contraponto é que isso reforça a teoria proposta por Invite the Light: desta forma, Dâm-Funk acena para um desenvolvimento que, mesmo torto, permanece envolvente e sedutor como o bom e velho funk. A parceria dá tão certo que o remix Party Version dá outra perspectiva, como se o futuro estivesse mais próximo (2025?).

Entre a bagunça e a incerteza, é interessante pensar que uma simbiose entre o indie-experimental não esteja descartada: é o que oferece “Acting”. Ao lado de Ariel Pink, um dos mais criativos dessa seara, Dâm-Funk adentra os sonhos, distorcendo o que poderia ser tido como onírico e ofuscando o ponto de aproximação que forma essa simbiose. O resultado é estranho e um tanto indissolúvel – certamente destoado das intransigências rítmicas de sons como “HowuGonFuckAroundAndChooseABusta?” ou da límpida “Scatin’ (Toward the Light)”.

É nas hiperbólicas “Survelliance Escape” e “O.B.E” que o Dâm-Funk soa mais eficaz em mostrar um passo adiante ao gênero. Com mais tempo que um single normal poderia suportar, elas fazem um intermédio com a eletrônica com a mesma necessidade que um pai recorre ao filho em busca de aperfeiçoar técnicas que o jovem, sozinho, não poderia atingir. “Olhe para os veteranos também, porque eles permanecem ali por uma razão – assim como nossos pais”, disse Damon em entrevista à SPIN. “Não importa o ranger de dentes que façam, eles sabem de coisas que não sabemos”.

Apontar evolução de um gênero em longas transições, longos experimentos, não é algo exclusivo de Invite the Light. No ano passado, Theo Parrish propôs algo semelhante em American Intelligence, tendo como ponto de fricção o jazz. O Dâm-Funk, por outro lado, é mais teórico e mais atento às fontes atuais, como se fosse o pêndulo entre a desconhecida geração do P-Funk de Junie Morrison (dos Ohio Players) e o funk pop atual de JimiJames. Eles têm uma reticência que precisa ser explorada, antes de aportar a um futuro desconhecido, mas tão instigante quanto seus passos no salão.