Gravadora: Freak R Us
Data de Lançamento: 23 de fevereiro de 2015
A cada era, uma nova luta. Posições políticas e sociais têm o pressuposto de polarizar tudo quanto é tipo de debate, e isso é tão velho quanto chamar um camarada pra beber no bar. Mas cada luta aglomera generalizações.
Nos anos 1970, a utopia do passado deu lugar a uma agressividade, fortemente assimilada pelo punk britânico no final da década, principalmente após a chegada de Margaret Thatcher ao Poder. Nos anos 1980, houve uma ressaca disso tudo, cujo símbolo-mor de maior relevância musical foi o pós-punk. Dez anos depois, a relativa paz após a Guerra Fria. Anos 2000: adaptação ao mundo computadorizado e, agora, o que impera? O vício nos smartphones.
Ninguém tem mais amigo em carne e osso: tá todo mundo distante, todo mundo no WhatsApp.
Todos esses fatos mencionados são generalidades, mas que aconteceram. A despeito de qualquer polaridade, são todos discutíveis: mesmo o mais desinformado hoje tem uma opinião a manifestar.
Se o The Pop Group estivesse ativo durante os anos 1980 e 1990, provavelmente traria uma abordagem a essas problemáticas que, em seu devido tempo, todos entendemos como algo comum. Seria sempre de forma agressiva, como os bons exemplos Y (1979) e For How Much Longer Do We Tolerate Mass Murder? (1980) evidenciaram?
O mais controverso de Citizen Zombie, todavia, é a produção. Mark Stewart deixou que as artimanhas de estúdio favorecessem a anarquia sônica tão cara ao grupo
Ao ouvir “Mad Truth”, não, nem sempre veremos Mark Stewart esbravejar e incendiar como há 35 anos. Que injustiça não seja feita: Citizen Zombie está longe, muito longe de estender a bandeira branca ao establishment. Em antítese ao indie frufru (mas viciante) do primeiro single, The Pop Group oferece pelo menos mais o triplo de exemplos revoltosos: o dub-punk de “Shadow Child”; a eletrizada “The Immaculate Deception”, com interceptações que nos remete a um walkie-talkie ambulante; e o death-funk de “St. Outrageous”. Essas canções mostram que distorção e tortuosidade ainda são dominadas com pujança pelo grupo britânico.
O mais controverso de Citizen Zombie, todavia, é a produção. Stewart considera Paul Epworth “o melhor produtor do mundo”, como disse em entrevista exclusiva ao Na Mira, e deixou que as artimanhas de estúdio favorecessem a anarquia sônica tão cara ao grupo.
“Age of Miracles” é uma das mais transfiguradas por esse processo: os backing vocals abafados e a guitarra calypso escancaram uma bizarrice futurística desprovida de qualquer agressividade – ou qualquer outra semelhança com pós-punk.
“Nowhere Girl” é massivamente eletrificada, ultrapassando as trincheiras do noise. Mas o refrão… Por estranho e misterioso que pareça, é pop. “Sempre quisemos ser uma banda pop, pop mesmo”, disse Stewart. Este é um dos exemplos mais sintomáticos: os elementos de uma música comercial são fragmentados, tornando-se escabrosa. Analisando bem, esse foi um dos maiores feitos que o Pop Group pôde oferecer em seu período clássico. No entanto, mais escabroso ainda é perceber que a mesma técnica permanece eficaz, o que representa, pelo menos, duas coisas: ou a música pop evoluiu quase nada nessas últimas três décadas, ou os compositores desse circuito guardaram o termo confronto apenas para suas letras, ao invés de também contextualizá-lo em termos musicais.
Porque a batalha, para o Pop Group, também se incrusta na técnica: a agilidade das guitarras de Gareth Sager e os slaps marcantes do baixo funky de Dan Catsis modulam os discursos em velocidades dilacerantes. Quando tais armas são insuficientes, entra um sax esfuziante em “Box 9” ou algum zumbido intrépido, como os que adornam a faixa-título. Nada soa repetitivo como o punk de três acordes; nesse quesito, o Pop Group manteve as diferentes dosagens (ainda que todas sejam altas) que perpassaram os discos anteriores.
Ok, então qual é a luta? Simples: é contra a robotização das pessoas.
Fosse qual fosse o assunto, o The Pop Group manteria a mesma essência.
Curioso é que a mensagem não é descaracterizada; Stewart e companhia oferecem uma perspectiva sarcástica, ainda que penosa. Não é preciso fechar os olhos: está tudo escancarado. A verdade é ardilosa; o pop – e o Pop Group – também.
Mudou alguma coisa?
