01 The Star Spangled Banner02 Father Norman O’Connor Introduces Duke & the Orchestra / Duke Introduces Tune & Anderson, Jackson & Procope03 Black and Tan Fantasy04 Duke Introduces Cook & Tune05 Tea for Two06 Duke & Band Leave Stage / Father Norman Talks About The Festival07 Take the ‘A’ Train08 Duke Announces Strayhorn’s A Train & Nance / Duke Introduces Festival Suite, Part I & Hamilton09 Part I – Festival Junction10 Duke Announces Soloists; Introduces Part II11 Part II – Blues to Be There12 Duke Announces Nance & Procope; Introduces Part III13 Part III – Newport Up14 Duke Announces Hamilton, Gonsalves & Terry / Duke Introduces Carney & Tune15 Sophisticated Lady16 Duke Announces Grissom & Tune17 Day In, Day Out18 Duke Introduces Tune(s) and Paul Gonsalves Interludes19 Diminuendo In Blue and Crescendo In Blue20 Announcements, Pandemonium

21 Pause Track

Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: Segundo semestre de 1956

Desde jovem, na década de 1920, Duke Ellington já era considerado gênio por elevar a audiência das orquestras de jazz. Ao lado de Fletcher Henderson e Count Basie, ajudaram a redefinir o conceito de big bands.

Seu principal feito era estimular a melhor musicalidade de cada integrante da banda sem sair de um contexto coletivo.

“A orquestra de Duke Ellington é um entrançado complexo de elementos musicais e espirituais”, disse o pesquisador Joachim-Ernst Berendt no clássico O Livro do Jazz: de Nova Orleans ao Século XXI. “Muitas peças de Ellington são verdadeiras objetivações coletivas, mas sempre com o predomínio de sua personalidade musical”.

Dizia o próprio Ellington: “Você precisa escrever pensando em determinadas pessoas, para as capacidades e disposições naturais de cada um, para que cada um possa dar o seu melhor. Minha banda é o meu instrumento”.

Essa essência musical de Duke é tão viva que não exercemos grosseria ao cortar diretamente para os anos 1950.

Depois de ter revelado instrumentistas que se tornariam modelos a serem seguidos nos anos decorrentes – de nomes como o sax-altista Otto Hardwicke, o trompetista Bubber Miley e o trombonista Joe ‘Tricky Sam’ Nanton – Duke Ellington aprimorou o considerado jungle style, unindo a consciência social de ser afro-americano, em um país que ainda hostilizava os negros após o fim da escravidão, com elementos do padrão europeu de composição. Claro, o rigor das partituras era afrouxado em prol da fluência musical que caracteriza o jazz desde sempre: a participação plena de cada músico da orquestra, seja mantendo o ritmo, seja improvisando em solos estarrecedores.

E por falar em solo estarrecedor, já cortando pros anos 1950, vamos ao que o sax-tenorista Paul Gonsalves realiza em “Diminuendo and Crescendo in Blues”, um dos pontos centrais do álbum ao vivo At Newport (1956). Em quase 15 minutos, somos maravilhados com uma peça que se inicia na mistura entre ragtime e swing. Ela se desenvolve brilhantemente no piano de Duke, até que o corpo de metais (formado por músicos como Johnny Hodges no sax-alto; Quentin Jackson no trompete; Jimmy Hamilton no clarinete, entre outros) alavanca a canção: a partir daí, não é permitida a quebra do swing. Então, entra Paul. “Aquilo tornou-se um enorme organismo vivo”, contou o produtor do álbum George Avakian. As pessoas saíram de suas cadeiras e começaram a dançar estrepitosamente. Foi o auge de uma apresentação magnânima.

É salutar que At Newport tenha sido realizado naquele ano de 1956. A tecnologia de gravação dava novo salto: era permitido registrar um disco com a banda inteira tocando junto, quebrando aquela separação em que cada canal tivesse que ser dedicado a apenas um músico ou um pequeno conjunto de instrumentos.

Límpida e vivaz, a gravação de At Newport soa excepcional mesmo nos dias de hoje. Não se perdeu nada da extrema capacidade daquela orquestra de Ellington: o solo de Ray Nance em uma das melhores versões de “Take the A Train”, composta por Billy Strayhorn; o trompete virtuoso de William ‘Cat’ Anderson e os growls de Clark Terry em “Part I: Festival Junction”, especialmente escrita para a apresentação; além da grande performance do importante Johnny Hodges no blues “I Got It Bad (And That Ain’t Good)”.

É salutar que a apresentação tenha sido realizada naquele ano de 1956. A tecnologia de gravação dava novo salto. Límpido e vivaz, At Newport soa excepcional mesmo nos dias de hoje

De início, alguns neófitos podem se incomodar com as interrupções de Ellington para a apresentação de cada músico. Não é sacrifício algum prestar atenção no que o pianista diz, pois cada instrumentista desempenha o melhor nas peças do disco.

Além de Ellington nos pianos, a orquestra contava com mais 15 integrantes. Dos não citados, vale mencionar o elogioso desempenho rítmico de Sam Woodyard na bateria (que chegaria a tocar com Ella Fitzgerald); as dicotomias entre o sax-alto de Russell Procope e o trompete de Ray Nance em “Part III: Newport Up”; e até mesmo a voz de Jimmy Grissom, que beira entre o cômico e o emocional à lá Louis Armstrong, na única música cantada do disco: “Tulip or Turnip”.

Quando foi originalmente lançado em LP, At Newport tinha apenas 5 faixas (“Festival Junction”, “Blues To Be There”, “Newport Up”, “Jeep’s Blues” e “Diminuendo and Crescendo in Blue”). Não foi bem o disco per si que marcou o grande retorno de Duke Ellington ao protagonismo da música popular norte-americana: foi o acontecimento, a exuberância de seu vigor musical.

Finalmente, no pós-guerra, o maior bandleader jazzístico de todos os tempos recobrava sua importância estética. Naqueles tempos, o rock’n roll começava a se engatinhar: a partir daí, o jazz perdia aos poucos seu appeal popular. Mas, como Ellington apontou, ainda havia muito a se desenvolver no gênero – como realmente aconteceu nos anos conseguintes, com as revoluções do cool-jazz, modal, free-jazz, fusion, avant-garde… enfim.

Na versão em CD duplo, de 1999, é possível ouvir o registro praticamente completo daquela noite de 7 de julho de 1956 (o segundo CD também traz outros takes dos temas apresentados). São mais de 2h de júbilo, intensidade, emoção, danças e rejuvenescimento musical. Ellington voltou a ser visto como a grande linha de frente de jazz e estampou a capa da revista Time Magazine no mês seguinte.

Se houvesse um colapso de memória de tudo que Ellington fez nos anos 1930 e 40, não havia problema: este registro elevou novamente sua idônea reputação.

Por tudo isso, At Newport permanece como o melhor e mais importante disco ao vivo de jazz já gravado. As palavras do promotor George Wein sentenciam: “É a melhor performance da carreira de Ellington. Permanece como a totalidade do que o jazz representava e poderia representar”.