Gravadora: Aura
Data de Lançamento: 1978
Quem, nos anos 1970, teria coragem de recusar uma proposta de excursionar com David Bowie na áurea fase de Aladdin Sane (1973), ou de se esquivar de uma grande gravadora, como a RCA? Annette Peacock.
Apesar de não ser um nome tão conhecido no circuito do rock, ela foi uma das instrumentistas pioneiras no uso dos sintetizadores Moog, nos anos 1970; participou de uma formação de Albert Ayler nos primórdios do free-jazz, quando tinha 20 anos; ajudou o pianista Paul Bley, que já foi seu marido, a compor diversos temas, até que casou-se com o baixista Gary Peacock, também do círculo jazzístico.
Por mais que o jazz corra no sangue e na trajetória desta nova-iorquina do Brooklyn, ela o assimilou de forma pouco ortodoxa. Ela deixa a sonoridade abrasiva destilar, enquanto envereda por um spoken-word em que revisita seu contexto enquanto mulher na sociedade. Assimila o funk e o rock de uma forma melíflua, mas que estruturalmente deve mais ao avant-garde que à qualquer incursão musical de Prince.
Quando lançou I’m The One (1971), ela percebeu que devia dar algumas concessões mercadológicas. Afinal, seu primeiro disco mesmo, de fato, deveria ser Revenge (1968), que a RCA se recusou a por no mercado naquele período. (O original foi lançado em 2014, com o título I Belong to a World That’s Destroying Itself [aka Revenge]. Na ocasião, ela disse: “Este é o meu primeiro disco. Ele era o disco certo, só que no século errado”.)
X-Dreams (1978), seu terceiro álbum, é mais pop. Dado o histórico dos antecessores, o motivo é mais que justificado. De início, supõe-se que essa abertura seja mais afrouxada pela lentidão das guitarras, mas, ainda que Annette não seja adepta dos padrões convencionais de composição, soa mais direta, mais incisiva logo de cara, em “My Mama Never Taught Ne How to Cook”. Ela diz que não aprendeu a cozinhar (‘por isso sou tão magra‘) ou limpar, ou ‘ter sucesso‘, deixando bem claro que ‘meu destino não é servir, sou mulher‘. Simone de Beauvoir se orgulharia.

I’m the One, de Annette Peacock, entre 15 discos nada convencionais de mulheres
O disco reúne alguns dos grandes instrumentistas londrinos daquela época, como Mick Ronson (guitarrista de Bowie), Chris Spedding (disputado guitarrista de estúdio que tocou com grupos que vão de Nucleus a Sex Pistols) e Bill Bruford (baterista do Yes). Isso porque a cantora, queridinha de Bowie, chegou a ser sondada pelo selo britânico MainMan, mas acabou engavetada – o que a levou a gravar o álbum na minúscula Aura.
Cada instrumento parece exercer uma função que parece correta, mas o resultado sai genialmente deslocado, tanto que o ouvinte parece ter guardado em algum lugar do córtex as melodias ora tortas, ora retilíneas de canções como “Real & Defined Androgens” e “This Feel Within”.
Cabe muito bem encaixar X-Dreams numa prateleira pop, mas mesmo dentro dessa seara Annette Peacock surpreende de maneira inusitada. Primeiramente, a canção mais próxima de um single, “Don’t Be Cruel”, que agrada de primeira por ser cover de Elvis Presley, é uma das últimas faixas do álbum (tirando ela, todas as demais foram escritas por Annette). Em segundo lugar, por mais que jazz e rock tivessem encontrado o eixo perfeito no fusion, o álbum utiliza seus elementos de forma mais suavizada, como se os gêneros fossem adaptados a uma estranha sensualidade.
O crítico da BBC Peter Marsh resumiu muito bem a essência do disco: “Os contos espirituosos e inflexíveis de Peacock de sexo e política são entregues sobre backings inventivos e tensos que brincam com blues, funk, jazz e avant-rock”.
Por conta da abertura musical que propôs, X-Dreams tornou-se um dos discos mais aclamados de Annette Peacock. Ter sido pop, neste caso, permitiu que a norte-americana passeasse por gêneros que fossem além do jazz ou da eletrônica. Permanece como um de seus trabalhos mais memoráveis.
