Blake flerta com diversos ritmos, que vão do clássico ao eletrônico. Mas seu som é quase uma anti-música

James Blake – James Blake

Só o que se fala nesse início de ano é de um tal de James Blake, principalmente após a BBC listá-lo como o “Number 2” na lista do Top Five Sounds of 2011. Isso porque o garoto de apenas 22 anos conseguiu formatar uma nova era no ambiente da música eletrônica, o pós-dubstep, o novo hype britânico que mistura algumas referências diminutas de música clássica e batidas minimalistas para forjar um clima mais ameno, calmo, reflexo da nossa ressaca diante da turbulência daquilo que o historiador Eric Hobsbawm denominou de “Era dos Extremos”.

E o som é basicamente isso mesmo: a calmaria pós-tempestade. Eu, sinceramente, não gostei. Ainda torço o nariz. Mas, é como disse o crítico do Guardian Alex Petridis: “não é uma audição fácil”. Julgo que todo esse burburinho criado em cima do artista está atrelado aos mesmos jornalistas que acreditam na revolução musical criada por Thom Yorke e o Radiohead. E eles não estão errados.

O que realmente me intriga é que o som de Blake é praticamente uma anti-música, algo que os britânicos estão cultivando bastante desde o burburinho gerado para que a canção silenciosa “4’33”, de John Cage, fosse às paradas natalinas.

Mal vazou na rede o álbum homônimo de James Blake, e publicações e blogs de todo o mundo já começaram a disparar elogios inebriantes. O som é absolutamente experimental e todos os sentidos são trabalhados de diversas formas: da decadência espiritual de “Wilhelms Scream” ao isolamento esotérico de “Lindesfarne II”, as batidas computadorizadas passam levemente pelo drum’n bass, dão um alô para o technohouse, chega a flertar com o avant-garde, cumprimentam o trip hop… mas a base mesmo é o dubstep.

O interessante é perceber como um artista que fez de tudo para fugir do som característico ao hype conseguiu agradar tanta gente com sua verve minimalista. De repente, James Blake salvou a música pop do abismo, uma abstração criada para dar validade a algo mais autoral do que propriamente uma tendência em si. Às vezes me pergunto: será que os fãs de música eletrônica industrial estavam carentes com o precoce pronunciamento do fim do LCD Soundsystem e, por isso, viram em James Blake o cara perfeito para representar essa nova era? Meio viagem, eu sei, mas tenho essa impressão.

Não consigo atribuir sanidade e caretice a um som como “Limit To Your Love”, canção que ficou em 39º nas paradas britânicas. James Blake não transpõe lisergia – não é essa a característica de suas produções. Por isso virou sentimentalismo. Mas acho que está mais para o emocional do solitário garoto David, de A.I. Inteligência Artificial, do que para a nossa realidade em si.

James Blake também possui momentos admiráveis, como as batidas experimentais de “To Care (Like You)”. E o próprio disco é puro conceito. No âmbito da pop music, é extremamente relevante porque desconstrói a música clássica e dá vazão e relevância à música eletrônica. Entretanto, é uma letargia que considero desnecessária, que trafega pelas vias contrárias daquilo que acredito que deveria ser o norte da música: a excelência sonora.

Se isso está fora dos critérios da imprensa especializada, então começo a me preocupar.

Para ouvir o álbum James Blake na íntegra, visite o Consequence of Sound.