Hoje, dia 24 de janeiro, completa-se exatos 10 anos da morte de Mauro Mateus dos Santos. Conhecido como Sabotage, o rapper gravou em vida apenas um disco de estúdio, Rap é Compromisso, em 2000, mas produziu inúmeras canções, estabeleceu diversas parcerias e levou o rap, um gênero antes tido como fechado às periferias, para as telonas ao participar dos longas O Invasor e Carandirú.

Para celebrar a obra deste artista mais irrequieto do que você imagina, produtores, músicos, escritores, documentaristas e outros envolvidos com a obra póstuma de Sabotage escolheram comemorar o aniversário de 40 anos que o músico faria no dia 3 de abril de 2013 – e não 13, como consta erroneamente até em sua lápide.

“A data ficou errada por conta de uma entrevista que o Sabotage deu por telefone”, revela o escritor Toni C., responsável pela biografia oficial do músico, que deve chegar às prateleiras em abril. “O entrevistador entendeu errado e ali ficou a ponto de a família reproduzir na lápide”.

Tudo em relação a Sabotage é envolto em mistérios e imprecisões. É para esclarecer um pouco mais sobre o rapper que Toni C., autor dos livros Hip Hop a Lápis – O Livro e O Hip Hop Está Morto! falou ao Na Mira. Além da biografia, está sendo preparado um CD de músicas inéditas, produzido por Daniel Ganjaman e Teju Damasceno, o documentário O Maestro do Canão, dirigido por Ivan Vale Ferreira, entre outros produtos para lembrar o autor da célebre frase: ‘rap é compromisso, não é viagem!’.

Muita coisa que você provavelmente não sabia foi tirada a limpo. Confira a entrevista:

Como veio a ideia de fazer a biografia do Sabotage? Tem relação com a comemoração dos 10 anos de sua morte?
Não, a ideia é antiga. Participei de um ato em homenagem a ele no mesmo ano de seu falecimento, em 2003, e contei a trajetória de como ele entrou no rap na coluna Hip Hop a Lápis, do Portal Vermelho. Muita gente não sabia da sua história, e até hoje não conhece muito. É comum se surpreender quando se fala em Sabotage. Quando publiquei o livro, fui à rádio 105 FM no programa do Rappin’ Hood.

Deixei um exemplar, e depois do programa ele começou a folhear o livro e comentou: ‘putz, é essa mesma a história do cara’. Porque quem trouxe pro rap o Sabotage foi o Rappin’ Hood e o Sandrão. Esse foi o start para fazer a biografia. Cheguei a falar isso pro Rappin’ Hood, e ele disse que queria me ajudar.

Ano passado, divulgando o livro O Hip Hop Está Morto, em que o Sabotage é um dos personagens homenageados, eu consegui ter acesso à família, entreguei um livro e fiz uma entrevista. Achei o tema muito atual, principalmente com os 10 anos da morte dele.

O livro está perto de ser concluído?
No meio de um caminho rápido, porque não temos tanto tempo para finalizar por conta dos vários lançamentos em homenagem a ele. O processo de pesquisa está bem andado e a nossa proposta de publicação é até abril, para coincidir com o aniversário do Sabotage.

E por falar em aniversário de Sabotage existe uma informação controversa: até a lápide está com a data errada, é isso mesmo?
Dia 3 de abril é o aniversário dele: 03/04/1973. Mas é um erro. Até fiquei insistindo nisso: ‘não, vocês estão errados, porque é o tipo de coisa que está na lápide’. Está lá dia 13/04/1973. Foi a família que produziu a lápide. E a data ficou errada por conta de uma entrevista que o Sabotage deu por telefone. O entrevistador entendeu errado e ali ficou. Não é um erro qualquer de um site, revista ou jornal – é um erro que praticamente se tornou uma segunda data. Pra você ver: a história do Sabotage tem equívocos da data de nascimento até o modo como ele morreu. É tudo misterioso.

E qual é o maior equívoco?
Dizer que ele entrou no carro quando estava dirigindo – e morreu. Ele nunca teve carro e nunca dirigiu. Não tinha carteira de motorista. Esse é o maior equívoco, mas o que realmente aconteceu… nem a polícia sabe direito. Tem um cara preso [Sirlei Menezes da Silva, condenado a 14 anos de prisão]. As versões da polícia e da imprensa dizem que tem a ver com o tráfico. A família duvida um pouco, sugere que seja inveja. Existem as versões, mas o que aconteceu de fato é difícil de apurar.

Pelo que apurei, o Sabotage nunca foi preso. É verdade?
Não, nunca foi detido até onde consegui levantar. Foi autuado duas vezes: uma por tráfico, outra por porte de armas. E já ficou, quando moleque, na Febem. Mas em um presídio cumprindo pena, não.

Ele chegou a morar na Vila da Paz, uma favela da zona sul de São Paulo, onde dizem que ele meio que ‘desandou’. Foi por volta dessa época que ele parou na Febem?
Lá ele estava da fase adolescente pra adulto e já estava casado. Na Febem ele esteve quando era menor de idade. Lá [Vila da Paz] era um lugar hostil pro Sabotage: se tem gente que fala mal, é daquela região. Ele entrou em um período de conflito e ficou num fogo cruzado.

Foi nesse período que ele chegou a cruzar com o tráfico?
Também, sim.

Que outro artista vai produzir tanta coisa pra 2013? Pra você ver a riqueza do legado que ele deixou

Em quanto tempo foi construído esse levantamento para a biografia de Sabotage?
Há muito tempo acompanho o movimento hip hop e o trabalho desenvolvido pelo Sabotage. Foi mais ou menos em junho de 2012 que tive acesso à família, solicitei e comecei a ler a respeito. A minha intenção era dar parte da verba em lucro pra família, muito parecido com o projeto do documentário O Maestro do Canão, do Ivan Vale Ferreira. A ideia era fazer a biografia oficial do Sabotage, com todo apoio da família para disponibilizar documentos, materiais de trabalho, anotações, etc.

O que mais te surpreendeu nesse tempo de pesquisa?
O tanto que ele produziu em tão pouco tempo e o número de relações que ele estabeleceu. Ele gravou com o Sepultura, Charlie Brown Jr. e muita coisa ficou interrompida: por exemplo, a parceria com o Paulo Miklos, em O Invasor, já tinha rolado, mas o Miklos tinha interesse de fazer algo com o Titãs. Otto, Instituto, BNegão e vários outros também gostariam de trabalhar com ele. E você se pergunta: como ele conseguiu transitar em tantos mundos em tão pouco tempo? Ele participou de diversos documentários, colaborou com várias canções que muita gente nem faz idéia. Ajudou a escrever “Nosso Rap”, do primeiro disco do NDee Naldinho. Ele não era muito conhecido na época, mas já estava produzindo, fazendo coisas, influenciando as pessoas.

Como ele conseguiu fazer tudo isso em tão pouco tempo?
Porque ele era ele, né? Hehehe. Ele fazia isso integralmente, amava isso. Nove horas da manhã, seis horas da tarde, qualquer horário: ele estava lá escrevendo letra. Dormia duas, três horas – se dormia. Estava ativo com dois celulares na época. Imagina hoje com internet? Ele tinha essa cabeça de conectar as coisas, juntar e transformar tudo em acervo.

Em relação à formação do Sabotage: ele não teve muito estudo, mas dominava com propriedade a linguagem das ruas, tanto pro trabalho dele, como as outras áreas de atuação, como cinema. Era só a rua mesmo que ditava o trampo dele?
Que também é uma formação sólida, né? Ele cursou até a oitava série, voltou a estudar supletivo depois de adulto, mas não seguiu adiante por conta de agenda. Estava com muita atividade e não conseguia acompanhar as aulas – o que demonstra o interesse dele por conhecimento. Se você ouvir atentamente as músicas irá perceber influências não só da rua, mas também de todo canto. Por exemplo, ele produzia com duas TVs ligadas, rádio ligado, conversando com pessoas. E escrevia, andava com papel no bolso, conversava…

Multitarefas mesmo.
E multimeios. Vinha de múltiplas fontes a informação para produzir as canções. Ele lia muito, lia de tudo. Não era um cara que pegava um livro pra ler do começo ao fim; mas dava uma folheada, depois pegava outra coisa. Era uma produção inquieta. Na música, ele começa falando de um tema, vai misturando outro e intercalando ainda outro assunto. Muito enérgico: daí que vem a força. Não só da informação contida na música, mas também da estética que aquilo tem.

Celebra-se muito o Sabotage por sua música – muita gente gosta dela. Mas vejo que a maior contribuição dele foi a proatividade em partir por diferentes meios. Isso seria o definidor na obra de Sabotage?
Difícil dizer. É certamente uma característica forte, mas tem diversas outras, como o carisma. Porque ele era meio infantil e ao mesmo tempo mantinha aquela fama que você conhece de ser metido na bandidagem. Ele ajuda a desmistificar, ou às vezes embolar tudo isso. São diversas as contribuições.

Talvez pra mim, agora, que estou imerso nessas múltiplas áreas, posso dizer que ele influenciou bastante no campo audiovisual: levou o rap pro cinema. Ou mesclar os gêneros musicais, porque ele ouvia de tudo e misturava o rap com diversas coisas, como eletrônica, rock, samba e vários outros.

Esses dias pensei: ‘pô, preciso ligar pro Sabotage’. É como se tivesse conversando com ele o tempo todo. Essa sensação dele estar tão presente leva a imaginar: ‘ano que vem ele vai lançar um livro, uma revista em quadrinhos, um filme, um documentário, um CD de músicas inéditas’… Que outro artista vai produzir tanta coisa pra 2013? Pra você ver a riqueza do legado que ele deixou. Com certeza o nome, a força, a áurea, a lenda está viva cada vez mais. Ele entrava em um lugar todo organizadinho, bagunçava e passava a ser o centro da coisa. Ele não ia como periferia; era o centro das atenções, desde que nasceu até quando morreu.

Fechou o livro com alguma editora?
Possivelmente, vai ser independente. Sai pelo selo LiteraRua, onde estão meus outros livros. É um selo que criamos pra editar nossa produção. Estamos conversando com outros parceiros, que podem pintar pra somar no projeto. Lançar independente, pelo próprio selo, que é como se mantém o próprio rap/hip hop.

Certamente seria outro cenário sem ele, dá pra dizer isso. Se melhor ou pior, não sei, mas ele bagunçaria com toda a certeza; ou arrumaria de outra forma

Você acha que o rap e a própria música brasileira ficaram reticentes após a partida dele?
Existe essa teoria. A ausência dele tem uma força muito grande, houve uma ‘baixa criativa’. Não sou necessariamente defensor dessa teoria. Mas certamente seria outro cenário sem ele, dá pra dizer isso. Se melhor ou pior, não sei, mas ele bagunçaria com toda a certeza; ou arrumaria de outra forma. Dá pra se discutir o Brasil olhando a trajetória do Sabotage: você vê a história das periferias, da chamada classe C que está ascendendo, o acesso à informação e à cultura…

Já tem título o livro?
Ainda não. O Sabotage sempre foi bom em criar frases de efeito. Tem alguns títulos, mas queria bater o martelo com a família.

Tem muita gente que chegou a estudar o Sabotage no Brasil?
Estudar não sei bem se é a palavra, mas quando você fala de Sabotage pra alguém, dizem na lata: ‘conheço, já fumei com ele, trocava ideia com ele’. Porque ele se relacionava com todo mundo: do mendigo ao cara da alta sociedade. Só que não necessariamente isso ajuda na hora de fazer trabalho de campo. É paradoxal, porque ao mesmo tempo que ele produziu muito e travou contato com muita gente, não existem registros precisos de quantas músicas ele fez, o que vestiu, o que tocou em tal show.

Naquela época a informação na periferia não era como hoje, de registrar, tirar foto, e tudo mais por conta da internet. Sobre o irmão dele, o Deda: tem versão que afirma que ele morreu na rua, na chacina dos 111 presos no Carandirú… É bem difícil catalisar tudo isso.

Ele visitava o irmão o tempo todo, né?
O irmão, os tios. Se você assistiu ao filme Carandirú, vai ver uma menção ao Nego Preto. Ele é tio do Sabotage. O nome é outro, porque o personagem não tem o nome da pessoa que o inspirou – e esse foi um dos motivos para que o Sabotage quisesse fazer o filme. Ele visitou o tio, que se chamava Velho Monarca, muitas vezes no Carandirú; ele fez outro personagem, o Fuinha, mas o tio dele é referência pro movimento entre os presidiários.

Já que você falou em Carandirú, como o Hector Babenco chegou ao Sabotage?
O Sabotage estava gravando O Invasor, do Beto Brant. E o Hector Babenco estava em algumas cenas no set de filmagem. Ele viu algumas coisas e chamou atores do set pra participar do Carandirú, que ia começar a rodar. Eles começaram a discutir nomes e apresentaram o Sabotage. Não foi em um primeiro momento que ele foi escalado – diferente do Beto, que quando viu o Sabotage já o queria no filme.

No caso do Hector, o Sabotage ficou meio reticente. Começaram a falar da história do personagem do livro do Dráuzio Varella, que serviu de base para construir o filme. Como todos os demais personagens, ele participou de um processo de seleção de atores, e aí foi decidido que ele faria o Fuinha.

E o Sabotage queria arrastar uma galera a mais pro filme, né?
Ele levou gente pra caramba! Você não pode dar 100% de crédito quando se fala de Sabotage, mas ele falou assim: ‘se lá tem 2.000 [figurantes], 1.500 eu que levei’. Meio exageradão, hehe. O escritor Marçal Aquino [autor do livro que inspirou o filme O Invasor] costuma dizer que O Invasor deve muito ao Sabotage. É diferente do que ele fez no Carandirú, mas foi um grande start.

ERRATAS • O nome da canção que Sabotage escreveu com NDee Naldinho é “Nosso Rap”, e não “Bem-Vindo ao Hip Hop”, como estava anteriormente.

• O nome correto do documentarista é Ivan Vale Ferreira, e não Ivan Vale Martins, como estava anteriormente.